GIRANDO EM FALSO

17/10/2010

Editorial da Folha de S.Paulo, 16/10/2010

Números da pesquisa eleitoral sugerem, mais uma vez, que o fator religioso é menos decisivo do que se imagina na decisão do eleitor

Não se registram oscilações na pesquisa do Datafolha sobre a sucessão presidencial. A candidata Dilma Rousseff, do PT, conta com 54% dos votos válidos, contra 46% de José Serra, do PSDB. São os mesmos índices da pesquisa anterior, feita há uma semana.

A estabilidade nas preferências do eleitorado não deixa de trazer um contraste irônico com o clima de agitação que se tem verificado na campanha. O temor de perder popularidade em setores religiosos motivou, como se sabe, bruscas alterações de opinião, por parte de Dilma Rousseff, enquanto José Serra se empenhou em renovadas exibições de fé.

Vistos ao microscópio, e com a ressalva de que a margem de erro estatística se amplifica conforme se dividem os grupos da amostra pesquisada, os números do Datafolha sugerem, mais uma vez, que a questão religiosa não produz efeitos tão imediatos como se imagina.

É curioso notar, por exemplo, que Dilma não perdeu votos entre os católicos, mas caiu seis pontos percentuais na pequena parcela de eleitores que se diz sem religião. Nesse grupo, que responde por 6% apenas do total dos eleitores, a candidatura Serra cresceu cinco pontos.

Entre os evangélicos pentecostais, a proporção dos eleitores de Dilma Rousseff não se alterou significativamente, se comparados os números desta pesquisa com os votos da petista no primeiro turno.

A própria questão do aborto, sobre a qual tanto tergiversou a candidata Dilma, é entendida pela maioria da população sob uma ótica relativamente diversa daquela manifestada pelos setores religiosos mais estritos.

Afinal, a lei em vigor admite a interrupção da gravidez nos casos de estupro e de risco para a gestante; a seguir-se a orientação da Igreja Católica e de outras confissões, nem mesmo essa eventualidade deveria ser admitida. Nem Dilma nem Serra, de todo modo, propõem-se a revogar a lei.

Não é só neste aspecto que a campanha, por assim dizer, gira em falso. Discute-se no campo governista, por exemplo, a conveniência de trazer de volta, com mais ênfase, a figura do presidente Lula nesta fase da disputa. Inventou e propeliu a candidata durante meses -até que se considerou necessário que Dilma, ela própria, mostrasse um mínimo de autonomia pessoal. Declina em alguns pontos a candidata; recorra-se, então, a seu demiurgo.

Lula alcança novos recordes de popularidade: 81% dos entrevistados na pesquisa classificam de “ótimo” ou “bom” seu desempenho. Apenas 40% dos eleitores, entretanto, dizem-se influenciáveis pelo engajamento presidencial numa candidatura.
Pesquisas de opinião, por certo, são um instrumento importante na avaliação de uma estratégia política.

A predominância do marketing na condução da campanha tende a atribuir-lhes, talvez, o caráter terrorífico e religioso de um anátema -quando o mínimo que se poderia esperar de candidatos à Presidência, na verdade, é que exponham o que de fato pensam.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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