FORA, ROMNEY

15/07/2012
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Paul Krugman

Folha de S.Paulo, 07/07/2012

SE OS EUA fossem um país melhor, Mitt Romney estaria disputando a Presidência tomando como plataforma sua maior realização quando governou Massachusetts: um plano idêntico em todos os aspectos importantes à reforma da saúde promovida pelo presidente Obama. Aliás, a reforma realizada em Massachusetts vem funcionando muito bem e conta com grande apoio popular.

 

Na verdade, porém, não é assim que Romney vem agindo; ele denunciou a Corte Suprema por sustentar a constitucionalidade de um plano de reforma da saúde igualzinho ao que promoveu.

O argumento que ele vem usando para justificar sua escolha para a Presidência depende, em lugar disso, da alegação de que, como empresário, sabe criar empregos.

Isso significa, portanto, que embora a direção de campanha de Romney possa não gostar da ideia, a carreira empresarial dele se torna assunto legítimo de discussão.

Como é que Romney ganhou todo aquele dinheiro? Será que as coisas que aprendeu como executivo são prova de que aquilo que é bom para a Bain Capital é bom para o país? E a resposta é não.

A verdade é que mesmo que Romney fosse um verdadeiro capitão de indústria, um Andrew Carnegie da era moderna, sua carreira não o teria preparado para dirigir a economia nacional.

Um país não é uma empresa (a despeito da globalização, os Estados Unidos ainda vendem em seu território 86% daquilo que produzem), e as ferramentas de política macroeconômica -taxas de juros, alíquotas tributárias, programas de gastos públicos- não são comparáveis aos instrumentos de uma empresa. Vale mencionar que Herbert Hoover (presidente entre 1929 e 1933, os piores anos da Depressão) foi um empresário de sucesso, à moda clássica.

E Romney nunca foi um desses empresários.

A Bain não constrói negócios, mas os compra e vende. Ocasionalmente suas aquisições resultaram em novas contratações. Na maioria dos casos, resultaram em demissões, cortes de salário e perdas de benefícios.

Duas semanas atrás, o jornal “Washington Post” reportou que a Bain havia investido em empresas cuja especialidade era ajudar outras companhias a transferir empregos ao exterior.

A direção de campanha de Romney perdeu as estribeiras exigindo -sem sucesso- que o jornal se retratasse com base em um documento “factual” nada convincente formado em boa parte por depoimentos de executivos.

O mais interessante é que a direção de campanha tenha insistido em que o jornal estava fornecendo informações incorretas aos seus leitores por não distinguir entre terceirização offshore, ou seja, transferência de empregos ao exterior, e simples terceirização, que significa transferir a uma empresa contratada serviços que a companhia teria realizado por conta própria.

Em resumo, o que é bom para a Bain Capital definitivamente não foi bom para os Estados Unidos. Como afirmei no começo, a campanha de Obama tem todo direito de apontar para esse fato.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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