FAZ DIFERENÇA

17/10/2011

Editorial da Folha de S.Paulo, 16/10/2011

Sem novas mobilizações populares, dificilmente medidas para coibir a corrupção encontrarão meios de implementar-se na prática

Estima-se que 20 mil pessoas tenham se reunido em Brasília, na quarta-feira, num ato contra a corrupção. Manifestações de menor monta se verificaram em outras cidades brasileiras. O número pode não refletir o grau de rejeição que o atual estado dos costumes políticos desperta na imensa maioria dos cidadãos. Ainda assim, fica assinalada a persistência do movimento.


Não foi, provavelmente, em consequência de uma nova onda de escândalos que se deu esse relativo aumento na participação. Talvez o que tenha mudado seja a percepção de que tais movimentos podem fazer alguma diferença.
Abstração feita de todas as distâncias que separam o Brasil da conjuntura dos países desenvolvidos, por exemplo, ou dos movimentos pela democracia no mundo árabe, parece predominar um clima global favorável ao ativismo. A rodada de protestos que ontem tomou as ruas de grandes cidades do mundo rico, de Roma a Tóquio, de Madri a Estocolmo, é mais uma prova disso.
De outro lado, o vago e inconcluso movimento de “faxina” na máquina federal, ligado às demissões na equipe de Dilma Rousseff, talvez tenha acendido a possibilidade teórica de que prossiga.
Um terceiro fator seria o de que, aos poucos, o movimento contra a corrupção perde sua característica de protesto impreciso para focar-se em reivindicações concretas.
O fim do voto secreto nas deliberações do Congresso que incidam sobre o comportamento ético dos parlamentares; a exigência de “ficha limpa” nas indicações para cargos de confiança; a diminuição do próprio número de postos disponíveis para esse tipo de nomeação política (contam-se em cerca de 25 mil atualmente, só no governo federal); a adoção de total transparência, via internet, nas contas dos governos e na divulgação dos financiamentos de campanhas eleitorais: propostas desse tipo revestem-se de conteúdo prático e de eficácia real.
Difícil cogitar que uma demanda política concreta como essa não ache formas de canalizar-se institucionalmente, por lideranças partidárias ou civis capazes de adotar tais bandeiras com credibilidade.
Não é nada certo que a iniciativa provenha da própria presidente Dilma Rousseff, cuja “faxina” foi invocada por alguns manifestantes, ou de partidos da oposição. Ambos os lados têm, na questão do fisiologismo e da corrupção, os constrangimentos sabidos. Ambos, todavia, carecem de rumos e bandeiras para sua atuação pública.
Seja como for, personagens políticas só se mostram dispostas a mudar seu comportamento quando pressionadas à exaustão. Muito mais mobilização será necessária até que isso aconteça no Brasil.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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