ELEIÇÕES MAJORITÁRIAS: SUPERESTIMANDO AS INTENÇÕES DE VOTO DO PRIMEIRO COLOCADO NAS PESQUISAS

30/12/2010

 

Fonte: elaboração do autor, com base nas pesquisas listadas e nos números oficiais do TSE

 

  Por Maurício Costa Romão

Na configuração de votos válidos, em que disputam duas forças – simplificadamente, para efeito expositivo, “situação” e “oposição” – o crescimento da quantidade de votos de uma força significa decrescimento da outra, na mesma proporção. A conquista de um voto para uma equivale a menos um voto para a outra.

Na hipótese de uma das forças sustentar uma diferença de 10 pontos percentuais de vantagem sobre a outra, a diferença será zerada se a força em desvantagem crescer apenas 5 pontos em intenção de votos. Um exemplo concreto pode auxiliar na explicação.

Até meados de setembro, cerca de duas semanas antes do pleito de 3 de outubro, os analistas políticos eram praticamente unânimes em considerar muito remota a chance de haver um eventual segundo turno na eleição presidencial do ano que passou.

De fato, levando-se em conta as pesquisas eleitorais nacionais realizadas pelos quatro grandes institutos que cobriram a eleição de 2010 (Sensus, Ibope, Datafolha e Vox Populi), desde agosto, especialmente a partir da segunda quinzena, as intenções de voto consignadas a Dilma Rousseff vinham sendo sistematicamente maiores do que a soma daquelas obtidas por José Serra e Marina Silva. Essa consistência numérica, ceteris paribus, garantiria vitória em primeiro turno para a candidata petista.

A diferença de intenções de voto a favor de Dilma estaria ao redor de 13,5 pontos de percentagem (51% a 37,5%), considerando-se a média de dois levantamentos efetuados na metade do mês de setembro, do Datafolha (13-15/09) e do Ibope (14-16/09), cujos resultados foram praticamente iguais.

Em termos de votos válidos, ainda segundo a média dos números do Datafolha e do Ibope, Dilma teria cerca de 57,6% contra 42,4% da votação conjunta de Serra e Marina (mais “outros”candidatos), uma diferença de 15,2 pontos de percentagem. 

Então, tudo o mais permanecendo constante, para levar o pleito para o segundo turno, a oposição (incluídos nesta categoria todos os candidatos do lado em desvantagem) precisaria crescer mais do que 7,6 pontos de percentagem, que é metade de 15,2, a diferença dela para a situação.

Não existe alternativa para se tirar essa diferença, já que se trata de votos válidos disputados entre dois grupos: a desigualdade de intenção de votos, como dito acima, precisa ser zerada, no mínimo.

O que pode, talvez, auxiliar nesta empreitada numérica são as eventuais discrepâncias entre as estimativas das pesquisas e as totalizações oficiais, o que só se vai saber se elas existiram post factum, depois da eleição.

Dependendo de como essas discrepâncias de dêem, pode haver um empurrão para a oposição chegar ao segundo turno, complementarmente aos seus méritos próprios de avançar alguns pontos de intenção de votos, tirando-os proporcionalmente do adversário. Como isso pode acontecer?

O cientista político Alberto Carlos Almeida (“Erros nas pesquisas eleitorais e de opinião”) comparou estimativas de 562 pesquisas eleitorais (realizadas às vésperas ou bem próximas dos pleitos) com resultados oficiais, em nove eleições majoritárias no Brasil, estados e municípios (presidente, senador, governador e prefeito), de 1986 a 2002.

Nesse cotejo, descobriu que há um padrão sistemático de erro ao se confrontar as pesquisas com os resultados das urnas: a superestimação dos percentuais de intenção de votos do primeiro colocado, independentemente de sua cor partidária ou ideológica.

De fato, em nada menos do que 65% das pesquisas estudadas o candidato primeiro colocado obteve percentual mais elevado do que o registrado pelas urnas. Por outro lado, em apenas 28% das pesquisas o primeiro colocado teve seu percentual subestimado, e em 7% os percentuais de intenção de voto e números oficiais foram iguais.

Um exemplo mais simples, porém elucidativo da evidência empírica constatada pelo cientista mencionado, ocorreu na eleição para Prefeito do Recife, Pernambuco, em 2008.

Foram oito os institutos de pesquisa que “cobriram” a eleição de 2008, na última semana do pleito, divulgando dados registrados no TRE.  Todos os institutos previram percentuais de intenção de votos para João da Costa, o candidato primeiro colocado nas pesquisas, acima daqueles que foram registrados nas urnas. Um caso típico, portanto, da superestimação acima aludida.

A que se deve esse fenômeno? Segundo o mesmo cientista os erros acontecem em todos os estados e municípios, mas são comprovadamente maiores nos lugares onde a escolaridade é mais baixa. As pessoas desse nível tendem a revelar nas pesquisas preferências pelo primeiro colocado, porém na hora de votar acabam errando, votando em branco ou anulando o voto.

Outro erro sistemático encontrado no estudo de Almeida aponta para subestimação dos percentuais do segundo colocado nas pesquisas: em 50% dos levantamentos, o candidato segundo colocado ficou com um percentual abaixo do registrado nas urnas.

Aqui também cabe, novamente, à guisa de ilustração, trazer à baila a eleição majoritária de 2008, no Recife. Com efeito, todos os oito institutos que fizeram previsões na última semana do pleito subestimaram o segundo colocado nas pesquisas, o candidato Mendonça Filho, já que todos os percentuais projetados foram menores do que o dado oficial.

Contudo, há que se ter presente, neste caso do segundo colocado, que se observa também nas pesquisas uma elevada proporção (40%) de superestimação dos percentuais vis-à-vis os números das urnas, enquanto que em 10% os percentuais de intenção de voto e números oficiais foram iguais.

Em resumo, voltando agora ao exemplo da eleição presidencial de 2010, as pesquisas indicavam que as remotas chances da oposição chegar ao segundo turno dependeriam, naquele momento, de aumentar suas intenções de voto em 7,6 pontos de percentagem, no mínimo.

Este desafio, a apenas 10 dias da eleição, árduo sob todos os títulos, poderia se facilitado pelas probabilidades, relativamente altas, das pesquisas superestimarem os percentuais da situação e subestimarem os da oposição, diminuindo, assim, o esforço de recuperação do lado em desvantagem.

E foi exatamente o que aconteceu! A tabela abaixo, que traz 6 levantamentos de intenção de votos realizados proximamente às eleições de 3 de outubro, incluindo dois feitos às vésperas, mostra que houve sistemática superestimação de votos da primeira colocada, Dilma Rousseff, e subestimação do segundo colocado, José Serra.

Os institutos também tiveram dificuldades de captar a “onda de opinião” que alavancou a candidatura de Marina Silva a cerca de uma semana do pleito, subestimando os percentuais de intenção de votos, relativamente aos dados observados.

Fonte: elaboração do autor, com base nas pesquisas listadas e números oficiais do TSE

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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