ELEIÇÃO SEM PESQUISA ELEITORAL?

07/08/2012

Eleitora

É possível uma volta ao passado, quer dizer, ter eleições hoje em dia sem a presença polêmica das pesquisas eleitorais?  

Maurício Costa Romão

Antes de qualquer coisa é oportuno contextualizar o papel das pesquisas eleitorais. Elas são, acima de tudo, um importante instrumento de comunicação social. As pesquisas expressam para a sociedade o que é que o eleitor está pensando sobre o processo eleitoral, quais são suas simpatias ideológicas e partidárias, quais são suas preferências pelos prováveis candidatos, quais são seus sentimentos e expectativas sobre o presente e o futuro, quais são seus principais problemas e apreensões, etc. Então, a pesquisa eleitoral é a caixa de ressonância do pensamento do eleitor, vale dizer, da sociedade.

 

Os postulantes a cargos eletivos, notadamente a cargos majoritários, precisam estar sintonizados com os recados dados pelos eleitores através das pesquisas, sob pena de não o fazendo terem suas pretensões políticas rejeitadas pela maioria da população. O planejamento da campanha eleitoral não pode mais prescindir desse instrumento técnico fundamental. As decisões estratégicas precisam estar fundamentadas numericamente. Não podem mais ser tomadas na base do achismo. A volta ao passado é sucumbência ao improviso, ao voluntarismo e ao voo cego.

A pesquisa tem, assim, o condão de promover essa intersecção entre o eleitor e o candidato. Serve de base, também, para os cientistas sociais se debruçarem sobre o pensamento do eleitor, mapeando suas demandas, suas emoções, enfim, suas circunstâncias, como diria Ortega y Gasset.

Depreende-se, portanto, que pesquisa eleitoral é muito mais que um simples painel de resultados de intenção de votos, onde aparece apenas quem está na frente, quem vem em segundo lugar, e assim por diante. Esse aspecto, a chamada horse race (corrida de cavalos, que destaca quem está em primeiro, segundo, etc.), é muito valorizado pelo público, porém é tão somente um detalhe do enorme manancial de informações que os levantamentos captam. 

Com toda a carga de críticas a que está sujeita, com todas as imperfeições que caracterizam sua técnica, ainda assim, para o processo político-eleitoral, é infinitamente melhor a presença, às vezes protagônica, da pesquisa eleitoral a cada pleito do que conviver com a não existência dela.

Se não houvesse pesquisa eleitoral ter-se-ia, aí sim, uma espécie de ditadura da informação. As informações sobre as campanhas e seus atores ficariam adstritas aos envolvidos direta e indiretamente no entorno dos candidatos e a um pequeno segmento da população, naturalmente o mais privilegiado social e economicamente. A grande maioria assistiria a tudo de longe, por ouvir dizer, conjecturando sobre tais e quais postulações, alianças, possibilidades eleitorais, etc. Não haveria, como se diz tecnicamente, “jogo de coordenação”, processo através do qual os eleitores interagem, discutem, trocam informações, com vistas a formar consciência sobre o voto que vão consignar. E não haveria esse processo interativo simplesmente por insubsistência de conteúdo informacional. Era o que acontecia no passado, principalmente nos grandes centros populacionais.

Ademais, o principal interessado, o eleitor comum, aquele que vai decidir sobre como ele quer sua cidade e quem ele vai escolher para administrá-la, não seria consultado durante a campanha. Seu pronunciamento dar-se-ia apenas no dia do pleito, mas aí consubstanciado em pouca ou nenhuma informação. Apenas um pequeno número de eleitores teria tido, ao longo do processo eleitoral, o privilégio de deter certas informações qualitativas e quantitativas não acessíveis à maioria, caso típico de uma sociedade onde impera a informação assimétrica, a prática da antidemocracia.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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