ELEIÇÃO PRESIDENCIAL: SEGUNDO TURNO?

27/09/2010

Por Maurício Costa Romão

Até meados da semana passada, os analistas políticos eram praticamente unânimes em considerar muito remota a chance de haver segundo turno na eleição presidencial deste ano.

 Após as pesquisas do Datafolha e do Ibope divulgadas dias 22 e 24 deste mês, respectivamente, já se percebe a admissão dessa possibilidade. 

Considerando-se a média de intenções de voto dos dois levantamentos mencionados, em termos de votos válidos, a diferença entre Dilma Rousseff (54,4%) e a soma dos demais candidatos (45,6%) diminuiu e está agora em 8,8 pontos de percentagem (a eleição se define no primeiro turno se um candidato obtiver 50% mais um dos votos válidos).

Entretanto, na configuração de votos válidos, em que disputam dois lados – simplificadamente, para efeito expositivo, “situação” e “oposição” – o crescimento da quantidade de votos de um lado significa decrescimento do outro, na mesma proporção. A conquista de um voto para um equivale a menos um voto para o outro.

Então, tudo o mais permanecendo constante, para levar o pleito para o segundo turno, a oposição não precisaria crescer 8,8 pontos de percentagem, a diferença entre os lados, porém algo ligeiramente acima de 4,4 pontos.

O que talvez possa auxiliar a oposição nesta empreitada numérica seja a recorrência das históricas discrepâncias entre as estimativas das pesquisas e as totalizações oficiais.

Com efeito, o cientista político Alberto Carlos Almeida (“Erros nas pesquisas eleitorais e de opinião”) comparou estimativas de 562 pesquisas eleitorais (realizadas às vésperas ou bem próximas dos pleitos) com resultados oficiais, em nove eleições majoritárias no Brasil, estados e municípios (presidente, senador, governador e prefeito), de 1986 a 2002.

Nesse cotejo, descobriu que há um padrão sistemático de erro ao se confrontar as pesquisas com os resultados das urnas: a superestimação dos percentuais de intenção de votos do primeiro colocado, independentemente de sua cor partidária ou ideológica.

De fato, em nada menos do que 65% das pesquisas estudadas o candidato primeiro colocado obteve percentual mais elevado do que o registrado pelas urnas.

Um exemplo mais simples, porém elucidativo da evidência empírica constatada, ocorreu na eleição para Prefeito do Recife, Pernambuco, em 2008.

Foram oito os institutos de pesquisa que “cobriram” a eleição de 2008, na última semana do pleito, divulgando dados registrados no TRE.  Todos eles previram percentuais de intenção de votos para João da Costa, o candidato primeiro colocado nas pesquisas, acima daqueles que foram observados nas urnas. Um caso típico, portanto, da superestimação acima aludida.

 A que se deve esse fenômeno? Segundo o mesmo cientista os erros acontecem em todos os estados e municípios, mas são comprovadamente maiores nos lugares onde a escolaridade é mais baixa. As pessoas desse nível tendem a revelar nas pesquisas preferências pelo primeiro colocado, porém na hora de votar acabam errando, votando em branco ou anulando o voto.

Outro erro sistemático encontrado no estudo de Almeida aponta para subestimação dos percentuais do segundo colocado nas pesquisas: em 50% dos levantamentos, o candidato segundo colocado ficou com um percentual abaixo do registrado nas urnas.

Aqui também cabe, novamente, à guisa de ilustração, trazer à baila a eleição majoritária de 2008, no Recife. Os oito institutos aludidos subestimaram o segundo colocado nas pesquisas, o candidato Mendonça Filho, já que todos os percentuais projetados foram menores do que o dado oficial.

 Em resumo, as pesquisas indicam que as chances da oposição chegar ao segundo turno dependem, neste momento, dela própria aumentar suas intenções de voto em 4,4 pontos de percentagem, no mínimo.

Este desafio, a poucos dias da eleição, pode ser menos árduo devido à probabilidade, relativamente alta, das pesquisas superestimarem os percentuais da primeira colocada e subestimarem os dos “outros candidatos”, diminuindo, assim, o esforço de recuperação do lado em desvantagem.

Há que se aguardar, contudo, outras pesquisas para detectar se a diminuição da diferença de intenções de voto entre os dois lados configura uma tendência. Se assim for, o segundo turno é iminente.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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