ELA TEM A FORÇA

09/01/2012

Marina Silva

Folha de S.Paulo, 30/12/2011

Nos períodos de festas e confraternizações, em que somos plasmados pelos desejos de melhores dias, nem sempre nos damos conta de que, com os presentes que afetuosamente damos e recebemos, ali – onde sem tocar e ver, na forma de um apurado sabor, provado pelo ouvido, e não pela boca, materializado em acústica, e não palpável, como nos apetece- está a palavra. Sempre apta a produzir luz e trevas, tristeza e alegria, atenção e indiferença.

Que não nos engane o mundo das imagens digitais, das TVs de última geração -três dimensões- e dos tantos efeitos especiais. O que nos constitui são as palavras. Elas é que são semente, elas é que dão fruto.

Sempre cultivei enorme fascínio pela palavra, dita ou escrita, sussurrada ou cantada, rústica ou erudita, de multidões ou de poucas vozes.

Hoje, reafirmo que as palavras foram mesmo meus melhores presentes. Ainda que em afiadas lâminas e pontiagudas setas, elas jamais deixaram de ser, para mim, as melhores instrutoras de meu trilhar persistente.

Nunca esquecerei a voz embargada de meu pai balbuciando as palavras que me autorizaram, aos 16 anos, a ir para a capital de meu Acre, cuidar da saúde e estudar. Presente dado e chancelado na forma de uma arriscada autorização que, hoje sei, foi para mim uma espécie de passaporte diplomático para a realização de meus sonhos.

Como esquecer os sofisticados presentes que recebi, nas palavras não ditas, de meu tio mateiro, sábio homem, talhado na arte de escutar o silêncio?

Como entender meu gosto pela oratória sem a veia poética de minha avó e mãe de parto, que recitava para mim as cantorias de martelo de seu agreste sertão cearense, em pequenas amostras do poder evocado pela palavra, na força criativa e criadora do verbo que comanda toda a ação?

Encantava-me particularmente quando ela recitava o anúncio feito pelo repentista anfitrião, da peleja entre Inácio da Catingueira e o letrado Romano, grande estudioso das coisas do sertão. Quanta riqueza! Linguagem oral e literária fundindo-se para gerar uma cultura de resistência, beleza, poesia e valentia.

O anúncio da peleja entre os dois cantadores era feito com a força e a magnitude típicas de um duelo cósmico, entre presença e vazio, caos e organização: “Hoje aqui tem que se ver, Relâmpagos de caracol, Os nevoeiros parar, Dar eclipse no sol, As águas do mar secar E eu pescar baleia de anzol.”

Tudo isso porque dois repentistas iam disputar com palavras as grandezas do sertão.

Palavras escritas, silenciadas ou ditas são a nossas mais firmes superfícies de sustentação. Feliz 2012.


MARINA SILVA escreve às sextas-feiras nesta coluna.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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