DOIS VOTOS AO SENADO?

21/09/2010

 

Cesar Maia

Folha de S.Paulo, 18/09/2010

A eleição para o Senado dá ao eleitor, de oito em oito anos, o direito de votar duas vezes. É a única eleição no Brasil em que isso acontece.

No Chile, usa-se o sistema de primeira e segunda maiorias. As eleições para senador e deputado seguem esta regra em cada região eleitoral. A fórmula de primeira e segunda maiorias contribui para a convergência de partidos afins e para o equilíbrio da representação parlamentar. No Brasil, a regra dos dois votos produz distorções que podem afetar a dinâmica e o próprio resultado das eleições.

Naturalmente, cada candidato ao Senado faz sua campanha pedindo votos para si. E evita conflitar com seus adversários, pois precisa do segundo voto deles. Com isso, o eleitor toma sua decisão direta para o primeiro voto e residualmente para o segundo. São duas as consequências disso.

A primeira é que a taxa de fixação do voto em um candidato é muito maior no primeiro voto do que no segundo. Ou seja: a probabilidade de o eleitor mudar seu segundo voto é muito maior do que mudar o primeiro.

A segunda consequência é o paradoxo do segundo voto como contraditório do primeiro. Na medida em que, na eleição, os candidatos na TV não estabelecem suas diferenças, para evitar perder o segundo voto, o eleitor médio decide seu segundo voto sem preocupação de coerência na chapa que escolhe.

Na medida em que, numa situação dessa, a tendência do eleitor médio é escolher quem tem chance, os candidatos mais competitivos se veem na situação em que o segundo voto de seu eleitor pode derrotá-lo, ampliando a votação de seu adversário. A eleição se despolitiza, e o resultado pode ser o contrário do que a decisão de primeiro voto indicaria.

Como os TREs não separam o primeiro do segundo voto na apuração, uma análise precisa se torna impossível. Mas se pode fazer uma análise dedutiva a partir das últimas pesquisas, na semana da eleição e do resultado final.

Alguns institutos de pesquisa não têm informado, neste ano, o primeiro e o segundo votos separados, o que impede a análise dedutiva. Analisando as eleições de 1994 e de 2002 a partir dos institutos que separaram o primeiro e o segundo votos, focalizando os últimos dias e comparando com o resultado das eleições, a proporção de eleitores que não confirmou seu segundo voto indicado nas pesquisas estava em torno de 30%.

Com isso, na urna, um candidato do primeiro escalão apontado nas pesquisas pode crescer na mudança do segundo voto uns dez pontos, mudando a ordem de chegada do primeiro escalão.
Nesse sentido, fazer campanha pelo segundo voto é decisão de alto risco.


CESAR MAIA escreve aos sábados nesta coluna.

cesar.maia@uol.com.br

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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