DISCURSO POLÍTICO PRECISA SE ADAPTAR PARA ATENDER A DEMANDAS SOCIAIS LOCALIZADAS

23/09/2010

Mauro Paulino
Diretor-Geral do Datafolha

Alessandro Janoni
Diretor de Pesquisas do Datafolha

Folha de S.Paulo, 22/09/2010

 Denúncias como as que dominam o noticiário atual criam enorme expectativa no ambiente político sobre seus reflexos na disputa presidencial, mas, em geral, costumam ter alcance limitado. São assuntos que atingem segmentos pouco representativos do eleitorado -predomina o desconhecimento.

A falta de informação, porém, não pode ser confundida com falta de repertório crítico por parte dos eleitores que admitem não detê-la. E também não se trata de dificuldade de acesso a meios de comunicação. A TV tem ramificação suficiente para alcançar estratos diversos.

A desinformação sobre os escândalos reflete mais o desapego dos eleitores pelo discurso político, inadequado à realidade e a valores da grande maioria da população. O “conteúdo” da campanha remete a segundo plano propostas e programas de governo, tornando-os generalistas, longe de atender a demandas localizadas, desmerecendo a opinião pública.

Os dados divulgados hoje mostram um breve diagnóstico da percepção da população sobre a agenda do país. Com base nos resultados é possível identificar os vetores de composição do voto governista, as prioridades da nova gestão e os pontos sobre os quais o atual presidente deveria prestar contas.

Quando Lula começava seu mandato, em 2003, os principais problemas do país, segundo os eleitores, eram na ordem: desemprego, fome, miséria e violência. Agora, o petista termina sua gestão com a saúde sendo apontada como o principal problema, seguida por violência e educação.

O desemprego aparece depois, mas com uma taxa 21 pontos inferior à verificada há quase oito anos e 39 pontos inferior ao índice de dezembro de 2004. As menções à saúde cresceram 28 pontos em quase oito anos e à educação subiram oito pontos.

Porém, analisar esses resultados apenas pelo total da amostra, sem observá-los por determinados segmentos pode camuflar aspectos importantes. Ao se combinar, por exemplo, a região do país onde o entrevistado vive e a renda do domicílio, alguns resultados surpreendem.

Percebe-se que entre os mais pobres do Nordeste a menção ao desemprego como principal problema supera a média em seis pontos. A violência assusta mais quem têm renda alta no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste, do que os entrevistados de mesmo perfil no Sul e no Sudeste. Entre os que têm menor renda no Sul e no Sudeste, a saúde se destaca. Entre os de maior renda nessas regiões, a educação chega a liderar o ranking.

Esses exemplos já ilustram a necessidade de adaptar o discurso para alcançar segmentos específicos do eleitorado. Esses temas, se tratados pelo marketing político com o nível de linguagem e de persuasão adequados aos estratos, colaborariam mais na formação do voto. É a abordagem multipontuada das questões que, se consistente e bem comunicada, muda a história da eleição.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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