DILMA: DE SINAL AMARELO PARA VERMELHO

22/04/2014

Fonte: elaboração própria (dados de Alberto Carlos Almeida)

Maurício Costa Romão

Tornou-se praxe fazer avaliações de governo mediante os indicadores de ótimo e bom extraídos das pesquisas eleitorais.  Embora tecnicamente tenha suas impropriedades (basta dizer que deixa de fora as manifestações de “regular” e “ruim e péssimo”), o fato é que tal mensuração, simples e intuitiva, se consagrou na área político-eleitoral e caiu nas graças do público.  

Independente da medida, os especialistas consideram a avaliação de governo, também tida como sinônimo de popularidade do governante, como um dos principais fatores determinantes do voto: incumbentes bem avaliados tendem a ser reeleitos ou a fazer seus sucessores.

Com efeito, há uma correspondência lógica entre avaliação de governo e voto: grande parte das manifestações positivas de ótimo e bom que os eleitores conferem ao executivo transforma-se em votos. Daí, quanto mais elevada a avaliação da gestão, maior é a quantidade de votos recebida pelo governante candidato ou pelo seu indicado.

O inverso também prevalece: baixas avaliações positivas derrubam as intenções de voto e, depois, as decisões de voto. O desejo de mudança se sobrepõe ao de continuidade.

Na pré-campanha eleitoral deste ano a presidente Dilma Rousseff, sob esse indicador popular de ótimo e bom, está tendo problemas junto aos eleitores, quando sua administração é submetida a julgamento, desde as manifestações de junho do ano passado (vide gráfico que acompanha o texto).

De fato, depois de uma queda abrupta na sua popularidade, de 63% para 31%, de março para julho, a mandatária nacional iniciou promissora trajetória de recuperação já no mês de agosto e chegou a atingir 43% em dezembro (vide linha azul do gráfico).

Daí em diante, entretanto, a aprovação positiva do governo vem em queda livre. O percentual de ótimo e bom detectado nesta última pesquisa do Ibope de abril foi de 34% (32% pela pesquisa contemporânea do Vox Populi), apenas três pontos acima do pior índice da série, registrado logo após os protestos de junho.

A julgar pelos dados coletados pelo cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise, em 104 eleições para governador no Brasil, entre 1994 e 2010, o percentual de 35% de ótimo e bom de Dilma estaria perigosamente situado na faixa circunscrita à incumbentes que perderam a eleição (vide tabela acima).

Ciente de que a evidência empírica apresentada assenta-se apenas em eleições de governadores e não de presidentes, Almeida adiciona aos seus achados os dois casos das reeleições presidenciais recentes de Fernando Henrique Cardoso e Lula, cujos resultados se encaixariam nos limites mostrados na tabela. Assim, com as devidas ressalvas sobre o “tamanho da amostra”, os exemplos presidenciais se assemelhariam aos governamentais.  

Note-se, contudo, que os percentuais de ótimo e bom da tabela foram coletados nas últimas pesquisas antes dos pleitos. No caso de Dilma Rousseff, portanto, ela ainda teria seis meses para reverter os atuais índices, considerados ruins pelos especialistas.

Com o foco da mídia apenas na soma das manifestações de ótimo e bom, o conjunto das declarações de ruim e péssimo, o lado negativo da avaliação de governo, passa meio despercebido do público. Pelo curso recente da linha vermelha do gráfico nota-se que o brasileiro está cada vez mais insatisfeito com a gestão presidencial, haja vista o crescente conceito negativo que lhe atribui. 

Em termos tendenciais, o gráfico sugere que as duas linhas podem cruzar-se nas próximas aferições, dadas as trajetórias delineadas a partir dos últimos três levantamentos sucessivos do Ibope. Na pesquisa de abril, aliás, já há empate técnico entre as duas avaliações (nos limites da margem de erro).

As insatisfações derivadas das manifestações do ano passado parecem continuar latentes, a julgar pelos altos índices de brasileiros que querem mudanças nas ações do governo (68% no Ibope e 72% no Datafolha).

E aí reside o mais sério obstáculo às pretensões da presidente Dilma: como alterar o mood da população, daqui até o pleito, de forma a reconquistar adeptos, se as demandas dos insurgentes de junho (simplificadamente: combate à corrupção, novas práticas políticas, e serviços públicos de qualidade) não podem ser razoavelmente atendidas neste curto prazo?

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br

 

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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