DEUSES E BESTAS

03/02/2012

Lee Siegel

Um novo filme baseado no Coriolano de Shakespeare, dirigido e estrelado por um eletrizante Ralph Fiennes, acaba de estrear – e não poderia ser mais oportuno. A peça aborda o pior pesadelo da democracia: o líder que repentinamente revela viver acima das normas sociais. O frenético combate entre Mitt Romney e Newt Gingrich pela nomeação presidencial de seu partido trata precisamente disso. Cada um tenta provar que o outro, por baixo das aparências respeitáveis, é um sociopata.


Tive a maravilhosa sorte de estudar Coriolano há 1 milhão de anos com um dos maiores conhecedores mundiais de Shakespeare, o acadêmico inglês Frank Kermode, que morreu há um ano e meio. Ele próprio uma pessoa de voz mansa e modos polidos, Kermode saboreava o tratamento das duras realidades políticas da peça. Ele citou a ideia, atribuída a Aristóteles, de que a pessoa incapaz de viver em sociedade é ou um deus ou uma besta. O medo corrosivo na vida americana é da chegada de um líder que convença as pessoas de que é um deus encarregado de salvar o país – e de que, uma vez eleito, ele, ou ela, se revele uma besta amoral, antidemocrática.
Para encurtar a história, após várias maquinações, o talentoso general Coriolano concorre ao posto de cônsul em Roma. Com o apoio tanto do Senado como do povo, está prestes a vencer quando eclodem tumultos fomentados por seus adversários. Enfurecido, Coriolano não consegue controlar sua arrogância e sua raiva. Ele destila escárnio na ideia de democracia e insulta o povo romano, chocando-o com seu desprezo. Em razão de seus destemperos, ele é banido da cidade, sitia-a e depois é convencido a fazer uma trégua. Quando retorna à cidade, seus inimigos o assassinam. Depois de ser alçado à condição de um deus quando era um general triunfante, ele vira uma besta ao se confrontar com instituições democráticas.
O deus/besta assombra a imaginação americana. Considerem o caso do presidente Barack Obama. Até seus detratores foram silenciados pela beleza simbólica de sua eleição à Casa Branca três anos atrás. Ele alcançara um status de divindade. Poucos meses após sua posse, contudo, já era atacado como comunista, traidor, simpatizante de terroristas e, não menos importante, alguém que gostava de uma boa comida francesa. Para a angustiada mente americana, o ser divino, redentor havia se tornado um animal enfurecido determinado a dilacerar a democracia americana.
Não se trata apenas de Obama, é claro. O congressista de Nova York Anthony Weiner, um dia considerado um aposta certa como o próximo prefeito de Nova York, foi apanhado enviando imagens dele mesmo seminu a mulheres pela internet. A besta, exposta! John Edwards, que já foi tido como um candidato presidencial decente, progressista, foi apanhado com uma amante. Besta! Mark Sanford, o ex-governador sereno e polido da Carolina do Sul, foi descoberto pelo fato da própria América Latina – descobriram que tinha uma amante argentina – ser, no fundo, um inimigo bestialmente mortal da democracia americana. Grrrr!
Estou tratando de tudo isso na brincadeira, mas o anseio pelo (e o terror do) deus que se revela uma besta não é assunto para risos. A democracia é o sistema político mais frágil da Terra. Suas bênçãos de abertura, inclusão e oportunidade são também a maldição de sua vulnerabilidade a manipulações, acordos secretos, corrupção. Não se pode acalentar o sonho da democracia sem ficar constantemente vigilante sobre a possibilidade do pesadelo de sua dissolução.
E assim Gingrich acusa o rico e prestigiado Romney de ser um destruidor implacável de empregos e um sonegador fiscal. Romney acusa o bem-sucedido e respeitável Gingrich de ser um mentiroso e traidor de seu eleitorado durante seu mandato no Congresso. Gingrich se apresenta a admiradores como um defensor da moralidade tradicional e dos valores familiares. A mídia o expõe como um adúltero compulsivo que enviou papéis de divórcio a sua segunda mulher enquanto ela morria de câncer. Romney se apresenta a admiradores como alguém que se importa com as aflições da classe média. A mídia o expõe como alguém que um dia tentou intimidar uma mãe solteira a doar seu filho para adoção quando era bispo da igreja Mórmon. Em cada caso, o medo coletivo é que, por trás da fachada, os dois homens sejam, nas palavras de Kermode, “governantes ingovernáveis”. Sociopatas. Bestas.
A despeito de todo seu sensacionalismo e alarmismo fabricado, a mídia está desempenhando uma função importante, como a mão confortadora de um pai que protege de pesadelos um filho vulnerável. Meu próprio medo é que um dia surja um deus/besta sem segredos sórdidos a expor. Uma falta de imperfeição humana parece ser a única qualidade que aplacará o escrutínio angustiado da democracia. Mas uma falta de imperfeição é a marca de uma implacável desumanidade. O dia do juízo da democracia americana será a chegada do deus/besta que não tem nada a esconder.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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