Dar direção à confiança

23/05/2010

Cesar Maia,

Folha de S.Paulo (22/05/2010)

A ALIANÇA POLÍTICA com vistas à disputa eleitoral é matéria de estudos pela politicologia.
Desde a segunda metade do século 19 até quase o final do século 20, as alianças foram, em geral, construídas a partir de programas, decididas e divulgadas pelos partidos que se coligam. O debate prévio se desenrolava por meses. Esse processo nem sempre foi assim.

Algumas vezes se estabelecia uma aliança por proximidade política, com a expectativa de que no processo se construiria um programa. Ou como Antonio Machado: “Caminante…, se hace camino al andar”. No Brasil, nos últimos anos, e 2010 é um caso exemplar, todas as alianças políticas se fazem por proximidade. Nenhuma é construída a partir de programas convergentes e divulgados.

Na biografia de Bismarck (primeiro-ministro alemão de 1862 a 1890), Emil Ludwig narra algumas passagens em que essa disjuntiva é explicitada. Uma delas quando Bismarck (47 anos) era embaixador da Prússia em Paris, poucos antes de assumir como primeiro-ministro.

Num encontro com o imperador Napoleão 3º (54 anos), no palácio de Fontainebleau, este indagava se a Prússia estaria disposta a “concluir uma aliança comigo” e como era o clima em relação a ele. Bismarck diz que “as prevenções de opinião pública contra a França quase desapareceram e que os sentimentos do rei em relação ao imperador são os mais amistosos”.

Mas afirma que “as alianças, nas circunstâncias atuais, só podem ser frutuosas se são úteis e necessárias”. E sublinha que “toda aliança requer um motivo e um fim”. Napoleão 3º replica, dizendo que “isso nem sempre é justo, pois as potências mantêm relações mais ou menos amistosas”. Afirma: “Diante de um futuro incerto, deve-se dar uma direção à confiança”.

E conclui: “Seria um grande erro traçar um caminho para os acontecimentos, pois estes vêm por si mesmos, sem que possamos calcular a sua força e a sua direção”.

Chamado com urgência de volta a Berlim, Bismarck é convidado a assumir a função de primeiro-ministro devido à crise política, produto de um impasse entre o rei e o Legislativo. Com sua experiência de ex-deputado, busca no Legislativo os elementos de concessões recíprocas de forma a garantir o fundamental das propostas do rei.

Mas, ao negociar com o bloco de oposição, vê a dificuldade de avançar: “Neste momento, esses senhores não estão de acordo nem quanto aos motivos pelos quais se unem. Daí nasce a querela. E se machucam “con amore”, o que é próprio da profissão”.

No ano político de 2010, aqui no Brasil, nacional e regionalmente valem as duas máximas. A de Napoleão (aliar-se e depois dar direção à aliança) e a de Bismarck (eles não sabem por que estão juntos).

cesar.maia@uol.com.br

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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