CRISE À ESPANHOLA

26/05/2011
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Editorial da Folha de S.Paulo, 25/05/2011

A hecatombe econômica global desencadeada em 2008 infligiu mais uma derrota eleitoral a um governo que patinava no combate à crise, desta vez na Espanha. A situação financeira espanhola é, no mínimo, preocupante. O país tem lugar cativo na lista de candidatos a recorrer a um socorro de bilhões de euros, juntando-se a Portugal, Irlanda e Grécia. O desemprego, em 21%, é mais que o dobro da média europeia; entre jovens, ultrapassa 45%.

A crise econômica estabelece uma engrenagem perversa para os governantes. Depois de gastar bilhões no socorro aos bancos e na tentativa de manter a economia à tona, são obrigados a realizar um forte ajuste fiscal, com corte de despesas e benefícios sociais, para tentar recompor suas contas.

Se hesitam em fazê-lo, acabam por aprofundar a penúria econômica no longo prazo, o que os deixa em má situação com a população. Mas, ao seguir a cartilha financeira e tomar decisões impopulares, ficam vulneráveis ao descontentamento dos eleitores. No poder desde 2004, o premiê José Luis Rodríguez Zapatero conseguiu trilhar os dois caminhos. Primeiro, resistiu a medidas de austeridade. Depois, encurralado, optou pelo ajuste. Ajudou a levar, assim, seu PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), de centro-esquerda, a humilhante derrota nas eleições regionais e municipais -de peso maior na Espanha que no Brasil, dado o grau de autonomia dessas entidades.

O resultado abre caminho para a vitória do opositor PP (Partido Popular) no pleito nacional, cujo prazo-limite é março de 2012. O enredo espanhol se desenrola contra um pano de fundo particular, com milhares de pessoas a ocupar praças do país, em sua maioria jovens que ganharam o qualificativo de “indignados”. O movimento parece repudiar a política institucionalizada, mas seria precipitado concluir que daí possa emergir uma ruptura comparável à observada nas praças árabes.

Para além de toda a espuma produzida pelos protestos, o comparecimento às urnas foi de 66%, em um país onde o voto não é obrigatório. É um percentual maior que o da eleição de Obama, uma das mais mobilizadas dos EUA. Mesmo com um aumento na quantidade de votos nulos, o caso espanhol assinala o fato de que a democracia continua a ser a via preferencial de transformação.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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