CRESCER

26/06/2012

Benjamin Steinbruch

Folha de S.Paulo, 19/06/2012

AINDA ESTUDANTE, fiz uma viagem a Manaus no início dos anos 1970. Lembro-me de que nas ruas da capital do Amazonas, que já era Zona Franca, predominavam pequenos carros japoneses, importados com benefício fiscal. Eram tão ruins e quebravam tão constantemente que o sonho dos manauaras era comprar um carro nacional, um Fusca, de preferência.

Não é o caso de citar a marca daquele frágil carrinho japonês, que, nas décadas seguintes, se tornou confiável e virou sonho de consumo da classe média em todo o mundo.

O Japão deu um salto extraordinário no pós-Guerra, tanto na qualidade como na quantidade de sua produção. Do início dos anos 1950 até 1990, seu PIB multiplicou-se por cem e o país chegou à segunda maior economia mundial -só em 2007 perdeu o posto para a China.

Os benefícios desse crescimento se estenderam para toda a população japonesa, que hoje ostenta uma renda per capita de US$ 47 mil por ano. Desde o início dos anos 1990, porém, o PIB japonês alterna baixíssimas taxas de expansão com algumas recessões, por causa de crises econômicas, desastres naturais e concorrência de países emergentes, principalmente da China.

Depois de 20 anos em ritmo lento, ganha espaço no Japão de hoje a teoria do pós-crescimento, segundo a qual os países avançados não devem e não precisam continuar buscando a expansão do PIB a qualquer custo. Ou seja, podem abandonar o objetivo do crescimento econômico e se fixar mais na tarefa de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, sem forçar a ampliação do consumo.

A teoria do pós-crescimento é um tema que permeia os debates da Rio+20, pela preocupação dos ambientalistas com o impacto do crescimento constante para o futuro do planeta. Um dos teóricos é o professor de políticas ambientais James Gustave Speth, da Universidade Yale, nos EUA. Outro é Tim Jackson, professor de sustentabilidade da Universidade de Surrey (Reino Unido), que participa da Rio+20.

É compreensível que esse debate se dê em sociedades já desenvolvidas, como Japão, Reino Unido, Alemanha e países nórdicos. Que fique, porém, longe do Brasil. Aqui, a sociedade do pós-crescimento está seguramente muito distante.

Mais do que isso, está na hora de colocar o crescimento entre as metas explícitas do governo. Por que existe meta para inflação e não para crescimento? Essa omissão faz algum sentido em países já desenvolvidos, mas não no Brasil.

Preocupa a velocidade com se espalha a tese de que o estímulo ao consumo e a maior oferta de crédito terão efeito zero, neste momento, para reativar a economia. Não há discussão sobre a opinião geral de que o governo deve agir para destravar os investimentos públicos. Essa ação é indispensável, até para estimular o investimento privado.

Há quase consenso sobre a ideia de que o novo padrão de crescimento deve ser mais sustentado pelos investimentos. Mas as medidas que vêm sendo adotadas para incentivar o consumo das famílias devem ser mantidas. Elas têm o poder de acender o estopim da retomada.

O crescimento da demanda, não custa lembrar, é fator importantíssimo para impulsionar o empreendedorismo e aumentar a produção. Foi assim na crise de 2008, com efeitos muito positivos para a economia em geral. Pode ser que agora, dada a continuidade e o agravamento da crise europeia, o impacto seja menor. Ainda assim, indica a lógica, será importante.

Felizmente, a presidente Dilma Rousseff já deu mostras de que manterá a orientação econômica nessa direção. A taxa de juros já foi bastante reduzida, a apreciação do dólar foi parcialmente corrigida, e a expansão do crédito vem sendo estimulada pelos bancos públicos. Faltam intervenções mais robustas para aliviar a carga tributária que, com juros e câmbio, minam a competitividade da empresa brasileira.

Os indicadores mostram que a economia desaqueceu no primeiro quadrimestre e apresentou índices muito baixos de crescimento. Os primeiros sinais de recuperação já apareceram em maio, e a luta para manter e acelerar essa tendência precisa continuar, sem tréguas. Não há espaço no Brasil para a ideia de que é possível prosperar sem crescer.

BENJAMIN STEINBRUCH, 58, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp. Escreve às terças, a cada 14 dias, nesta coluna.

AMANHÃ EM MERCADO:
Alexandre Schwartsman

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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