CORRUPÇÃO E DESPOLITIZAÇÃO

30/08/2011

 

Editorial da Folha de Pernambuco, 28/08/2011

Setores mais conservadores do Brasil defendiam, décadas atrás, que o estudante deveria se dedicar somente às suas tarefas nos colégios e universidades. Ao estudante caberia apenas estudar, opinião que viria a ruir muito cedo, apesar de ressuscitada no período em que vigorou o arbítrio no País. Ainda existe quem defenda, embora desnecessariamente, a desvinculação da juventude de participar com mais vigor da atividade política nacional. Vamos por partes. A segunda fase da República, que se inaugurou com a Revolução (muito mais reforma) de 1930, teve na classe estudantil, principalmente entre os universitários de então, ativos militantes de uma causa cujas bandeiras reformistas viriam a imprimir um novo quadro político nacional, desvirtuado pelo golpe de 1937.

Mais à frente, com a derrota do nazi-fascismo, na II Guerra Mundial, a democracia ressurgiu com a anistia, a Assembléia Constituinte de 1946, a curta legalidade do Partido Comunista e as eleições para a Presidência da República.

A influência da mocidade, liderada pelos jovens estudantes democratas, se não foi decisiva, teve indiscutível relevância à redemocratização, inclusive pressionando, nas ruas das grandes cidades, o Governo federal a se engajar na luta contra o facismo e o nazismo.

Mesmo depois da ruptura de1964, havia um clima de relativa liberdade, eliminado pelo Ato Institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968, dando ensejo ao surgimento de uma geração de proscritos, muitos deles que optaram pelo equivocado caminho da luta armada contra o regime. Prevalecia o silêncio dos pântanos, a censura que amordaçava a Imprensa, facilitando que a corrupção proliferasse em vários setores.

Mais à frente, com a anistia de 1979, as prerrogativas da cidadania foram sendo restabelecidas, gradualmente, até chegarmos aos dias atuais, de liberdade plena em que vive o País.

Hoje, a nação convive com práticas de corrupção em níveis insuportáveis, além de rotineiras, embora esse mal epidêmico nunca tenha desaparecido em nenhum momento da vida pública do Brasil. A impunidade, a omissão, uma certa forma de tolerância, todos esses componentes nos levam às suas principais causas.
Existe, a nosso ver, na raiz desses males, no entanto, um distanciamento  flagrante e ascendente na juventude que está em formação, ao se excluir ou fazer questão de não se envolver na atividade política do País, ao contrário de jovens de outras épocas.

O acentuado hedonismo dos nossos dias, a difusão das várias formas de lazer, o desejo de “vencer” na vida a qualquer preço, a ânsia de viver o “dia de hoje”, tudo isso conjugado, resultam na alienação e despolitização da juventude, a quem não ousamos negar-lhes o direito de aproveitar um tempo em que ainda não alcançaram a idade da razão, como lembrava o escritor Jean Paul Sartre em um dos seus livros.

Não se culpem, porém, os jovens, pois foram vítimas da mordaça em décadas passadas, da esterilização do debate das idéias conflitantes, mas afirme-se que a corrupção também está relacionada com a indiferença dessa mesma mocidade diante da conduta malsã de tantos políticos que confundem, intencionalmente, o interesse público com o privado.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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