CONSERVADORISMO À BRASILEIRA

17/12/2010

José Roberto de Toledo

Vox Publica, 15/12/2010

O brasileiro é conservador ou liberal? Parâmetros importados dos EUA servem de régua para medir o comportamento do povo de Pindorama? Não há resposta unânime. Nesse caso, consulte-se a maioria. Com a palavra, ou melhor, com os números, o Ibope.

O brasileiro, todo candidato sabe, é contra a legalização do aborto. E quando o debate sobre o assunto esquenta, o que uns chamariam de conservadorismo aumenta.

A eleição presidencial fez crescer o auto-intitulado grupo pró-vida. Em março deste ano, antes de virar tema de campanha, havia 15% de eleitores pró-legalização e 13% sobre o muro. Em outubro, após a polêmica eleitoral, a maioria anti-aborto subira para 78%.

Lição para o postulante a cargos públicos: se você tem opiniões diferentes da maioria ou um esqueleto no armário, cuidado ao mexer no vespeiro, ou vai acabar ferroado.

Os nativos daqui não são emulações dos conservadores de lá. Cresceu em 2010 o grupo de brasileiros contrários à pena de morte. Em outubro, chegou a 55%, ante 46% em março. Aqui, o discurso em favor da vida tem alcance mais amplo do que nos EUA. Moral católica?

Viva sim, mas sem incomodar os outros. Praticamente 2 em cada 3 brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal: 63% defendem cadeia para adolescentes infratores. Maioria equivalente à que quer prisão perpétua para quem comete crimes hediondos.

Numa sociedade com alta taxa de homicídio e crianças recrutadas pelo narcotráfico, pode-se chamar de conservadora a maioria cujo discurso endossa a punição severa e desde mais cedo? Ou essas não são bandeiras de fato, mas válvulas de uma revolta difusa contra a impunidade?

Fosse um ponto de honra, políticos que defendem tais ideias já teriam conseguido capitalizar essa maioria para aprovar uma legislação draconiana. No Brasil, qualquer juiz sabe, políticos e penas duras raramente aparecem na mesma sentença.

Após décadas de inflação fora de controle e concentração progressiva da renda, o conservadorismo do brasileiro é fundamentalmente econômico. Não, o brasileiro não é monetarista. Ele só não gosta de mudar políticas que vê como vencedoras.

Em outubro, antes da eleição, o Ibope pesquisou se os eleitores preferiam um candidato que mudasse as coisas ou mantivesse o status quo. Só 9% disseram “que mudasse totalmente”. Uma maioria ampla se dividiu entre a “continuidade total” (32%) e “poucas mudanças e continuidade para muita coisa” (31%).

Esse raciocínio “não mexa em time que está ganhando” do eleitor ganhou corpo durante a campanha. Porque 57% temiam que o presidente eleito desencaminhasse o País. Votaram no menor risco. Conservadorismo econômico, ou o que?

Ao avalizar a política econômica, o eleitor está fazendo exatamente isso. Não é cheque em branco. Não vale para qualquer tema ou iniciativa governamental.

Um exemplo: símbolo do liberalismo de costumes, a união entre pessoas do mesmo sexo é vista com contrariedade pela maioria (54%). Em outubro, apenas 25% dos brasileiros se declaravam a favor -menos do que os 30% de março. Outros 20% não sabem de que lado ficar.

Como todo direito de uma minoria, quem defendê-lo enfrentará desgaste e desagradará parte de sua base eleitoral. Mas não é por isso que o governante deve esquecer no que acredita.

Líder é quem vai na frente, escolhe um caminho e tenta convencer outros a segui-lo. Grande parte dos políticos brasileiros prefere ficar na retaguarda, olhando para que lado a opinião pública se mexe, para ir atrás dela. É a vanguarda do conservadorismo.

O problema dessa atitude “Maria vai com as outras” é que dificilmente ela produz alguma inovação. As pessoas tendem a gostar do que elas conhecem. Mudança, só quando a água bate no nariz, e olhe lá.

Se Fernando Henrique Cardoso fizesse um plebiscito para decidir se o Brasil deveria adotar um negócio chamado URV que depois viraria o real, provavelmente ainda estaríamos usando cruzeiros.

Se Luiz Inácio Lula da Silva, logo ao tomar posse, submetesse ao eleitorado a ideia de dar uma mesada para todos os pobres, provavelmente os beneficiários do Bolsa Família ainda estariam passando fome.

Ambos arriscaram, inovaram e se deram bem. Fora isso, é o partido liberal-conservador.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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