CONCESSÕES PETISTAS

24/02/2012

 

Editorial do jornal Folha de S.Paulo, 20/02/2012

Como Clinton, que fumou, mas não tragou, líderes do PT fazem contorcionismo para justificar privatizações e metamorfoses políticas

Entrou para o folclore político mundial a resposta de Bill Clinton às suspeitas de que teria fumado maconha em sua época de estudante. “Fumei, mas não traguei”, declarou o candidato democrata à Casa Branca, em 1992. Fórmula análoga tem sido utilizada por petistas na tentativa de conciliar a transferência da operação de aeroportos para a iniciativa privada, promovida pelo governo federal, com o discurso contrário às privatizações que a agremiação sustentou, de forma agressiva, nas últimas campanhas presidenciais.

 

Segundo essa versão, concessões nada teriam a ver com privatizações, pois o Estado, no caso, não vende propriedades para consórcios privados, apenas as arrenda. Mediante pagamento à União, grupos capitalistas podem explorar os aeroportos e obter lucros, mas não se tornam proprietários.

O contorcionismo tem seu fundamento, pois concessões são uma modalidade de desestatização pela qual o poder público outorga à iniciativa privada, geralmente por décadas e de forma renovável, o direito de explorar um serviço.

Para efeitos práticos, equivale a uma privatização. Seria de perguntar-se, aliás, como a militância do PT reagiria a essas operações caso tivessem sido obra de um eventual presidente tucano. Estaria empenhada em demonstrar que não houve privatização ou, ao contrário, se apressaria em denunciar mais uma “privataria”?

Basta observar como os petistas tratam as concessões de rodovias ou as organizações sociais que administram serviços como os de saúde em São Paulo para encontrar a resposta.

Na realidade, as concessões petistas -em todos os sentidos do termo- datam do tempo em que a sigla começou a trocar a agitação oposicionista pela sombra dos palácios governamentais. Não é demais lembrar que, ainda em meados da década de 1990, Antonio Palocci, então prefeito de Ribeirão Preto, transferiu a exploração de serviços de saneamento para a iniciativa privada.

O marco simbólico desse deslocamento do partido em direção a concepções centristas -quando não ortodoxas- na área econômica veio em 2002, com a “Carta ao Povo Brasileiro” lançada pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva para tranquilizar os mercados.

Desde então, o lulismo converteu-se ao pragmatismo social-democrata, posição próxima à dos adversários tucanos, dos quais difere por questão de graus.

A metamorfose, diga-se, não se verifica apenas no plano da economia. A conversão também tornou-se norma em outros temas polêmicos, como o aborto. Ela dá margem até para endurecer com grevistas, como se viu na Bahia.

É compreensível que essa evolução consterne os redutos históricos do PT, onde ainda se acredita em duendes socialistas. São esses que, convidados a fumar o cachimbo governista, preferem, como Clinton, dizer que não tragam.

editoriais@uol.com.br

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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