COMPARANDO O QUÊ?

10/08/2011

José Roberto de Toledo

Vox Publica, 08/08/2011

Do jeito que foi divulgada, há três modos de analisar a pesquisa VoxPopuli encomendada pelo PT sobre o governo Dilma Rousseff: acreditar que 71% aprovam sua gestão, excluir a aberração “regular positivo” da conta e somar apenas 34% de aprovação, ou esperar a pesquisa Ibope/CNI que sai nos próximos dias. A terceira opção é a melhor.

Pesquisas de avaliação de governo são termômetros mais importantes para os governantes do que para a sociedade. As pessoas sabem o que pensam do governo. Mas o governo depende das pesquisas para saber o que pensam as pessoas.

Ninguém vai melhorar sua opinião sobre um governante porque a popularidade aferida na pesquisa foi um pouco maior ou um pouco menor. Mas um governante pode rumar para o precipício se basear sua estratégia em uma bússola que aponta o Sul onde está o Norte.

Os números divulgados da pesquisa Vox Populi não usaram o método tradicional de “ótimo”, “bom”, “regular”, “ruim” e “péssimo” para medir a aprovação do governo. O regular foi dividido em “regular positivo” e “regular negativo”. Tirou-se do entrevistado a opção de ficar “no muro”. Desse modo, ele é obrigado a escolher um lado, coisa que muita gente prefere não fazer se tem a opção.

Essa técnica tem dois efeitos. Primeiro, força a transformação de opiniões que seriam neutras (o “regular” puro e simples) em opiniões favoráveis ou desfavoráveis. Depois, o “regular positivo” é inimigo do “bom”: parte das pessoas que optariam por essa alternativa, mas sem muita convicção, fazem um downgrade para o “regular positivo”.

No caso do governo Dilma, a soma do “regular positivo” engana para cima, e a sua subtração engana para baixo. Daí ser melhor esperar uma pesquisa com um questionário que permita as opiniões neutras, como é o caso da CNI/Ibope, ou a do Datafolha. A da CNI está atrasada, talvez por ter esperado passar a crise Palocci, depois a crise dos Transportes, depois…

Como as crises emendam umas nas outras, é inútil mexer no calendário de pesquisas. Sempre haverá um “porém” que pode influenciar o resultado para um lado ou outro -como sempre alguém verá chifre em cabeça de cavalo sobre o porquê de a sondagem ter sido feita naquela data. O jeito de contornar o problema é explicitar o momento em que a pesquisa foi à campo e considerar seu efeito ao analisá-la.

A pesquisa anterior CNI/Ibope foi fechada em 23 de março, imediatamente após a visita do presidente dos EUA, Barack Obama. Seus elogios repetidos ao Brasil e à anfitriã influenciaram positivamente o resultado. Dilma chegou a 56% de “ótimo” + “bom”, porcentual superior ao de Lula no mesmo período do mandato.

Conclui-se que Obama ajudou Dilma nessa pesquisa porque uma sondagem do Datafolha concluída uma semana antes havia dado 47% de “ótimo” + “bom” para o seu governo. O único fato relevante entre uma pesquisa e outra foi a passagem do presidente norte-americano pelo País.

Depois dessas duas sondagens, o Datafolha voltou a campo em 10 de junho, logo depois da demissão de Palocci da Casa Civil. Dessa vez, Dilma chegou a 49% de “ótimo” + “bom”. Ou seja, ficou estável em relação aos 47% pré-Obama, o que só reforça a ideia de que os 56% foram um soluço estatístico provocado pelos elogios do carismático visitante.

Outras pesquisas feitas na mesma época, mas não divulgadas, apontaram resultado equivalente ao do Datafolha. Grosso modo, pouco antes de completar seis meses de governo, Dilma agradava metade da população, tinha um terço no “muro” e de 10% a 15% não gostando do que estavam vendo.

A nova pesquisa Ibope a ser divulgada nos próximos dias terá sofrido a influência da “faxina” no Ministério dos Transportes, mas não terá captado os eventuais efeitos da demissão do ministro Nelson Jobim da Defesa. Seu termo de comparação, na divulgação feita pela CNI, será a pesquisa feita no soluço de popularidade de Dilma pós-Obama, os 56%.

Melhor seria levar em conta a mais recentemente divulgada, do Datafolha, com 49% de aprovação. Mas a CNI só compara as pesquisas que contrata, nunca leva em conta sondagens divulgadas no meio do caminho, mesmo quando feitas pelo Ibope. Por isso, se a pesquisa Ibope/CNI encontrar uma aprovação em torno de 50%, ou seja, apontar estabilidade, poderá ser interpretada como perda de popularidade de Dilma. E a “culpa” poderá recair sobre a “faxina” no governo. Tudo depende da comparação.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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