CLASSES INSATISFEITAS E INQUIETAS

12/03/2015

Maurício Costa Romão

A pesquisa do Datafolha do início de fevereiro deste ano mostrou um quadro dantesco para a presidente Dilma Rousseff: a avaliação de seu governo, bem como sua imagem enquanto gestora e pessoa, se deterioraram tremendamente em relação ao levantamento do instituto em dezembro passado.

As razões dessa débâcle são conhecidas: anúncios e/ou implementação de medidas contrariando o discurso de campanha da presidente à reeleição, piora dos ambientes econômico e político do país e desdobramentos da roubalheira da Petrobrás.

De fevereiro para cá a situação se agravou, com notória intensificação das crises econômica, política e ética. Neste turbilhão, o desprestígio da presidente se acentuou e a pregação de seu impeachment passou a ser corriqueira.

O discurso da mandatária nacional no domingo passado (8), longe de reverter o desgaste, parece tê-lo aumentado, a ponto de ter sido recepcionado por panelaços em alguns estados.

Uma vaia à presidente esta semana em São Paulo foi sintomática do grau de irritabilidade de parte da população. Os dois episódios serviram de termômetro para as manifestações do próximo dia 15, prevendo-se que sejam de apreciável dimensão.

Alguns dos simpatizantes e defensores da presidente têm-se referido à convocatória para a passeata, aos brados de impedimento, ao panelaço, às vaias e ao pessimismo que reina no país, como movimentos e iniciativas engendrados pela “elite branca conservadora”, pela “classe média alta e classe rica”, pelos “perdedores da eleição”, pela “direita reacionária”, pela “grande mídia golpista”, e por aí vai.

A mencionada pesquisa do Datafolha de fevereiro pode lançar luzes sobre pelo menos um desses pontos: o que se refere à renda e às classes sociais.

Na pesquisa procurou-se selecionar algumas variáveis (proxies) que espelhassem a percepção do eleitor sobre a popularidade da presidente (variável “avaliação do governo”), situação da economia (“desempenho da presidente” e “perspectiva da inflação”), o contraste entre o que disse a presidente na campanha e o que fez depois de ser reeleita (“mentira versus verdade” e “falsidade versus sinceridade”) e, finalmente, sobre o escândalo da Petrobrás (“sabia ou não da corrupção na empresa”).

Na avaliação do governo, depreende-se que Dilma está sendo amplamente reprovada pela população: os percentuais de ruim e péssimo são bem maiores que os de ótimo e bom. A restrição à gestão governamental é maior nas classes “mais ricas”, A e B, porém atinge todas as classes. Então, o descontentamento com o governo da presidente é generalizado e não adstrito apenas aos que mais possuem.

O desempenho da presidente Dilma na economia segue o mesmo diapasão de sua gestão à frente do governo: é mais criticado nas classes de maior nível de renda, porém é reprovado em todos os estratos. Um subproduto dos desacertos na economia, a inflação, é percebida como em trajetória de aumento, percepção que grassa em todas as classes, homogeneamente.

Vê-se, assim, que as agruras da economia e o custo de vida são sentidos por todos e as reclamações nessa área não são oriundas só dos que podem se expressar “pela mídia golpista”, exalando pessimismo.

Talvez o maior dano à imagem da presidente tenha sido causado pela abissal diferença entre o que a mandatária disse na campanha da reeleição e o que ela fez depois. Há um sentimento generalizado de que a presidente mentiu para os brasileiros.

Esta percepção, geral, é maior, de novo, nas classes superiores de renda, A e B, onde 75% acham que a presidente, na campanha, ou falou mais mentiras que verdades ou somente mentiu. Não sem razão, pois, que se alastrou a noção, em todos os níveis de renda, de que a presidente é mais falsa do que sincera, um dano profundo na sua imagem. A pessoa de Dilma não mais transmite confiança para a maior parte da população.

Por último, mais da metade dos brasileiros (52%) acham que Dilma sabia da roubalheira da Petrobrás e não fez nada para impedir. Esta compreensão é menos forte nas classes mais pobres, não obstante expressiva . Já no topo da pirâmide de renda, nos segmentos sociais A e B, 71% consideram que a presidente sabia e nada fez contra a corrupção na estatal, contra apenas 10% que acham que ela não sabia.

Em síntese, pois, a evidência empírica atesta que o sentimento de frustração dos brasileiros com a presidente, sua imagem e seu governo está espraiado nos diversos segmentos sociais, dos mais pobres aos mais abastados. Reconhecer esse fato pela presidente e seus adeptos é o primeiro e mais importante passo para o árduo percurso de superação da crise atual.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Cenário Inteligência e do Instituto de Pesquisas Maurício de Nassau. http://mauricioromao.blog.br.mauricio-romao@uol.com.br

 

 

 

 

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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