CARTAS DE PARIS: A FRANÇA QUE VOTOU NA EXTREMA-DIREITA

01/05/2012

 

Ana Carolina Peliz

Blog do Noblat, 26/04/2012

Um ano atrás, Valérie me pediu que lhe ensinasse português. Ela tinha sido despedida de uma multinacional do petróleo que tinha negócios em Angola e estava persuadida que se aprendesse português teria seu emprego de volta. Aos 49 anos, e nenhum diploma além do segundo grau completo, ela conseguira fazer carreira na empresa em uma época em que os empregos abundavam na França e que para conseguir ser secretária era necessário apenas falar algumas palavras de inglês.

Durante o tempo que nos vimos, ela me contou sua história. Vinha de uma família simples, pai eletricista, mãe dona de casa.

Namorara, no passado, um brasileiro, um cantor que vivia ilegalmente na França. E que ela não titubeara em acolher em sua casa.

Valérie estava apaixonada por seu ex-chefe colombiano. Dizia que os homens latinos eram mais gentis que os franceses. Mas também me disse que a França acolhia muitos imigrantes. Ela não sabia muito bem porquê, mas não achava isso bom.

Uma vez eu a ajudei a instalar um aplicativo em seu smartphone e ela ficou tão agradecida que me fez um bolo e tricotou uma echarpe verde para mim.

Com o tempo, Valérie entendeu que não conseguiria seu velho emprego de volta, muito menos um novo. Ela me confessou, com muita vergonha, que não tinha mais dinheiro para pagar as prestações do apartamento e as contas do supermercado, por isso tinha que voltar a viver com os pais.

No domingo passado Valérie votou em Marine Le Pen, a candidata do partido de extrema-direita Frente Nacional, que conseguiu nesta eleição presidencial um recorde de votos na história do partido na França.

Quando perguntei porquê, ela disse que estava cansada, que queria voltar a ter um emprego e não depender da caridade dos pais já velhos.

Quando perguntei pelos imigrantes, ela disse que não tinha nada contra mim, mas que os estrangeiros na França viviam melhor que ela.

Claro que fiquei triste em saber que minha ex-aluna e amiga tinha votado em um partido extremista e xenófobo. Mas Valérie é uma representante desta França empobrecida, abandonada e em crise.

O inimigo dela não é real ou tangível, é um tal de multiculturalismo liberal, que ao mesmo tempo é muito complexo para sua capacidade de compreensão do mundo.

Ela não é fascista por opção ideológica e sim por desespero e de modo inconsciente.

Mas foram pessoas como ela que apoiaram os regimes mais sanguinários da terra. O voto de Valérie no domingo passado ainda deve fazer muitos estragos.

Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV. Ela estará aqui conosco todas as quintas-feiras.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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