CAMPANHA NACIONALIZADA EM 2020? (Publicado no Jornal do Commercio em 15/02/2020)

25/02/2020

Maurício Costa Romão

 Em celebrados textos sobre as eleições brasileiras de 2008, o cientista político Antônio Lavareda constatou que a elevada aprovação do governo federal à época ensejou uma tática narrativa de candidatos da sua base de apoio de “nacionalizar” as campanhas municipais, exaltando a excelência da administração central e a capacidade de realizar parcerias com o governo.

Aos oposicionistas só restou “municipalizar” tais campanhas, direcionando o debate para fatores locais: a iluminação da praça, o calçamento da rua, o lixo, o trânsito, etc.

O resultado, como se sabe, foi bastante favorável às campanhas nacionalizadas. Hoje, 12 anos depois, nota-se um déjà-vu em termos de reedição daquela dualidade. Mas, 2020 é diferente de 2008, como diria o conselheiro Acácio.

De fato, a pesquisa CNT/MDA, de janeiro 2020, mostra a população dividida quanto à avaliação do governo federal. Grosso modo, uma terça parte faz avaliação positiva (ótimo + bom = 34,5%), outra terça parte faz avaliação negativa (ruim + péssimo = 31,0%), e a terça parte restante considera o governo regular (32,1%).

A polarização é mais magnificada ainda ao se auscultar a população quanto ao desempenho pessoal do presidente da República: metade aprova (47,8%) e metade desaprova (47%).

Isso significa que o jogo político agora está equilibrado, não há predominância de uma força sobre outra como em 2008. Daí, adotar como estratégia de sensibilização do eleitor a nacionalização da campanha, inclusive do ponto de vista ideológico, é pregar para convertidos.

Em uma conjuntura política assim, com os dois lados em pé de igualdade para se contrapor ao discurso adversário, as questões nacionais perdem relevância e as peculiaridades locais se sobressaem.

Ademais, os eleitores hoje usam distintos recursos digitais para ficar antenados e interagirem nas campanhas políticas (e-campanhas!). Seguem o noticiário on-line, os websites dos candidatos, e se manifestam a todo o momento através das mídias sociais.

Ora, num ambiente desses, nenhuma afirmativa de âmbito nacional de uma ala deixa de ser contestada em tempo real pela outra, ambas numérica e politicamente de mesmo peso. A guerra virtual não tem vencedores. De novo, o que vai diferenciar os candidatos serão suas propostas localistas, de resolução dos problemas do município.

————————————————————————

Maurício Costa Romão, é Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. mauricio-romao@uol.com.br

 

Nenhum Comentário
Deixe seu comentário
Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

continue lendo >> Maurício Romão

Copyright © 2012 Maurício Romão. Todos os direitos reservados.

Desenvolvimento: 4 Comunicação