BOCA DE URNA FEZ FEIO NESTA ELEIÇÃO

08/10/2010

Fonte: elaboração do autor, com base em dados do TRE e do Ibope

Por Maurício Costa Romão

A principal característica distintiva da pesquisa boca de urna é que as entrevistas são feitas depois que o eleitor vota. Sob este aspecto esse tipo de levantamento tem, pelo menos, duas grandes vantagens sobre o survey convencional, que é realizado pré-voto:

(1) capta os sentimentos mais recentes dos eleitores, atualidade que a pesquisa normal não chega a alcançar e (2) a intenção de voto do eleitor já se materializou: os indecisos se decidiram, e quem eventualmente cogitava mudar de uma candidatura para outra, não mais pode fazê-lo.

Daí por que a pesquisa boca de urna é a modalidade que apresenta o maior índice de acertos, quando se comparam suas estimativas com os resultados oficiais das eleições. Quer dizer, os prognósticos da pesquisa boca de urna, que estão dentro da margem de erro amostral considerada, são os que mais se aproximam dos valores observados, relativamente aos levantamentos normais de antes do dia da eleição.

Surpreendentemente, as eleições majoritárias deste ano se encarregaram de contradizer a constatação amplamente alicerçada na evidência empírica de que pesquisa de boca de urna erra pouco.

Com efeito, o Ibope, instituto multinacional, reconhecido mundialmente pela excelência técnica, fez pesquisas boca de urna em 16 estados nesta eleição. Cometeu erros em quase todos eles, alguns dos quais gritantes, como errar a ordem de colocação do candidato, prevendo, por exemplo, determinado postulante em primeiro lugar, quando ele terminou em terceiro.

Devido à questão de espaço, são apresentados aqui apenas os resultados do Nordeste, onde o Ibope fez boca de urna.

Fonte: elaboração do autor, com base em dados do TRE e do Ibope

Fonte: elaboração do autor, com base em dados do TRE e do Ibope

No corpo central das tabelas estão mostradas as intenções de voto previstas pelo instituto para os candidatos listados. As células hachuriadas em vermelho destacam as intenções de voto que ficaram fora da margem máxima de erro estipulada, relativamente aos dados oficiais constantes da última coluna.

Por exemplo, na eleição de Pernambuco o Ibope previu 18,5% de intenções de voto para Jarbas Vasconcelos. Como a margem de erro daquela pesquisa foi de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, o candidato do PMDB poderia ter 20,5%, no máximo, e 16,5%, no mínimo. Da feita que o resultado oficial foi 14,06%, as estimativas do instituto não incluíram esse percentual dentro de sua margem de variabilidade de erro (16,5% a 20,5%). Tecnicamente, então, cometeu um erro de prognóstico.

As intenções de voto contidas nas células hachuriadas são, portanto, consideradas erros de previsão.

Como se pode observar pela quantidade de células avermelhadas espalhadas pelas tabelas, o desempenho da pesquisa de boca de urna do Ibope deixou a desejar.

Ademais, ficou patente neste e em outros pleitos que ainda há grande dificuldade por parte dos institutos de captar as chamadas “ondas de opinião”, movimentos inesperados que alavancam candidaturas às vésperas das eleições (vide, por exemplo, Marina Silva, no Brasil, e Aluysio Nunes, em São Paulo, este ano, Leonardo Quintão em Belo Horizonte e Gabeira no Rio de Janeiro, em 2008, Jacques Wagner na Bahia e Afif Domingos em São Paulo, em 2006, entre tantos outros).

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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