BÊ-A-BÁ DA CRISE

29/11/2011

Vinicius Torres Freire
 

 

Folha de S.Paulo, 27/11/2012
 

 

Origem do tumulto na zona do euro foi a própria criação da moeda única

Quedas de avião jamais têm apenas uma causa, como infelizmente se tornou lugar-comum dizer no Brasil. O tombo de países do euro também não. Mas se pode marcar o momento inicial das histórias que se emaranharam e deram na crise europeia. O detonador da crise da zona do euro foi a própria criação do euro, em 1999. A adoção da moeda única por então 11 países estimulou o crescimento dos países da “periferia” e incentivou seu endividamento. “Periferia”: Portugal, Grécia e Irlanda.

FALSAS “ALEMANHAS”

A adoção do euro e os acordos econômicos da unificação monetária provocaram uma baixa dos juros exigidos para financiar governos e empresas na eurozona. As taxas de juros ficaram próximas das exigidas à Alemanha, economia maior da região.

Com o euro, baixou muito o risco de desvalorização da moeda (quando a moeda perde valor, o credor de um país perde dinheiro). Os acordos do euro de resto exigiam baixa inflação e limitavam o endividamento. Ou seja, situações que aumentam o crédito (capacidade de pagar) de um país. Cai assim o risco de perdas e calotes. Como resultado, caem os juros.

Juros baixos estimularam o crescimento, que incentivou mais endividamento tanto público como privado.

Mas vários países da eurozona não eram “Alemanhas”. Devido a muitos motivos, os custos de produção (como salários) cresceram; a eficiência das empresas não aumentou. Os produtos dos países periféricos encareceram.

O crescimento alto elevou a receita de impostos, o que incentivou governos a gastarem mais -a se endividarem.

O excesso de consumo privado e de gastos de governos, além da ineficiência de suas economias, levou a “periferia” a exportar menos, importar mais: a ter deficits externos crescentes. Parte importante de tais deficits foi financiada por capital externo: com mais dívida externa.

O dinheiro fácil chegava, em parte, devido à disposição irresponsável de emprestar por parte dos mercados financeiros, que não percebiam os riscos ou os ignoravam, até estimulando o endividamento (caso da Grécia).

O relaxamento dos controles sobre a finança, a “criação” de dinheiro por meio de instrumentos financeiros complexos e a baixa mundial de juros no período foram também condições da crise.

Na Espanha e, em especial, na Irlanda, a situação foi agravada pelos empréstimos excessivos e ruins de bancos, que estimularam “bolhas” no setor privado (bolha: investimento excessivo em setor que não dará o retorno esperado, como os imóveis espanhóis).

FIM DA FESTA

A crise de 2008 nos EUA levou a Europa à recessão.

Com o crescimento menor, caiu a receita dos governos que, para atenuar a crise, aumentaram as despesas. Elevaram gastos sociais ou de estímulo econômico. Para evitar tumulto financeiro maior, governos se endividaram ainda mais a fim de salvar bancos da falência ou para comprá-los, o que foi especialmente grave na Irlanda.

Dívidas públicas explodiram; a capacidade de pagar (de arrecadar mais) caiu mais devido ao baixo crescimento econômico. As exigências de credores e do “governo” europeu de corte de gastos, a partir de 2010, reduziram ainda mais o crescimento. E, pois, a capacidade de pagar.

O “mercado”, abalado por perdas na crise de 2008 e agora consciente da fragilidade das contas de vários países, passou a exigir juros muito altos para refinanciá-los, começando pela Grécia. A ameaça de calote grego provocou a alta dos custos da dívida da periferia da eurozona, que se tornaram impagáveis.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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