AUTÊNTICO E FALSO MORALISMO

05/08/2011

 

Folha de Pernambuco, 05/08/2011

Editorial

A torrente de denúncias de irregularidades sobre desvios de recursos públicos prossegue como se fosse uma ocorrência rotineira no País. A onde de fatos comprometedores, verdadeiros ou não, porém, vem de longe, de décadas passadas.

Vamos nos restringir, para não ocuparmos maior número de linhas, ao início da década de 1950, a partir do governo constitucional do presidente Getúlio Vargas. Este, por adotar uma política dirigida em benefício dos trabalhadores e do próprio interesse nacional, tornou-se vítima indefesa dos seus adversários, quando do atentado em que foi assassinado o major da Aeronáutica, Rubem Vaz, certa noite, no Rio de Janeiro, em 1954, ao acompanhar o líder oposicionista, Carlos Lacerda, à sua residência, sendo ele um dos corifeus da União Democrática Nacional (UDN).

A UDN assestava suas baterias sobre o governo Vargas, tendo como bandeira principal ou biombo golpista a deposição do então presidente da República, sob a alegação de suposta corrupção na sua gestão, situação agravada com o lamentável desenlace que vitimou o oficial supra-citado.

Na realidade, a União Democrática Nacional nasceu contra o varguismo vigente no Estado Novo (1937 a 1945), quando o presidente foi deposto, ensejando o retorno da democracia ao País. Figuras ilustres de políticos civis como Afonso Arinos de Melo Franco, Prado Kelly, Bilac Pinto, Aliomar Baleeiro, Milton Campos, Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, aliados a alguns ex-tenentes de 1922 e 1930, a exemplo do brigadeiro Eduardo Gomes, dos generais Osvaldo Cordeiro de Farias e Juarez Távora e tantos outros importantes integrantes da atividade política nacional completavam o amplo quadro em que pontificava a conduta moralista, que se comprovou, mais à frente, uma articulação golpista, abortada pelo suicídio do presidente Vargas. Em outras palavras, era um comprovado moralismo falso.

A decisão presidencial de se sacrificar sufocou a tentativa de golpeá-lo, possibilitando a eleição do presidente Juscelino Kubitschek, em 1955, também alvo de denúncias de corrupção, quase todas não comprovadas, como os desvios de conduta que vêm desde o período imperial, embora continuem a merecer a unanimidade de condenação da opinião pública, independentemente de coloração partidária ou ideológica de quem estiver à frente dos destinos da República.

Não escapou, também, o presidente João Goulart, sucessor que assumiu a Presidência após a renúncia de Jânio Quadros. Os mesmos argumentos que chegaram à infâmia e à injúria pessoal foram suportados por um político conciliador, como todos que teve seus erros, mas voltado para assegurar os direitos da grande maioria dos brasileiros, mais uma vez, sob o fogo cerrado da UDN, instigadora do golpe de 1964, que garroteou as liberdades em nome da democracia.

Avancemos no tempo. O ex-presidente Lula até hoje recebe acusações de ter contemporizado com atos ilícitos cometidos por aliados, alguns procedentes, mas sem comprovação da cumplicidade presidencial.

Agora é a vez da presidente Dilma Rousseff enfrentar semelhante situação. A sua obri­gação é repudiar os atos ilícitos, mandar apurar, com rigor, as denúncias, e lutar para que haja a devida punição desde que comprovadas as denúncias. A democracia assim o exige, inclusive a obrigação de a oposição se manifestar livremente, assim como os meios de comunicação. Não há outro caminho a seguir, senão desnudar a verdade, prosseguindo nas medidas punitivas já iniciadas.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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