AS PESQUISAS NAS ELEIÇÕES DE 2010

12/11/2010

 

Maurício Costa Romão

Artigo do autor publicado no Diário de Pernambuco em 11/11/2010

A grande maioria das análises que trata de desempenho de pesquisas eleitorais se debruça sobre a averiguação dos números estimados pelos diferentes institutos, imediatamente antes dos pleitos, e suas divergências vis-à-vis os resultados oficiais.

Estimativas fora da margem de erro, ainda que apenas ligeiramente afastadas dos limites da margem, são consideradas falhas de previsão das pesquisas. Sob este critério, o desempenho dos grandes institutos, a nível nacional e estadual, no primeiro turno da eleição de 2010, deixou muito a desejar, tamanha a incidência de prognósticos em desacordo com os valores observados nas urnas.

Até mesmo as pesquisas boca de urna, tidas como portadoras de elevado índice de acertos (as entrevistas são feitas depois que o eleitor vota), saíram arranhadas das eleições majoritárias recém-findas. De fato, o Ibope aplicou essa modalidade para Governador em 16 estados no primeiro turno, porém apresentou estimativas discrepantes, fora da amplitude de erro, em quase todos eles. O instituto também se equivocou na disputa para Presidente.

Já no segundo turno, todavia, os quatro grandes institutos que fizeram cobertura da eleição presidencial (Ibope, Sensus, Datafolha e Vox Populi) acertaram suas previsões, nas últimas pesquisas de antes da eleição, dentro do intervalo de erro.

O próprio Ibope redimiu-se da má performance dos levantamentos boca de urna da primeira etapa e prognosticou corretamente resultados no interior da margem de erro em sete pleitos estaduais, dentre os nove onde houve segundo turno. Também foi exitoso no prever os percentuais do embate presidencial.

As pesquisas sempre geram controvérsia, principalmente por aferir possibilidades de vitórias e derrotas eleitorais. Seus prognósticos mexem com as emoções, causam alegria e tristeza, ao que as pessoas reagem de várias maneiras, a depender de como são afetadas.

Nas eleições deste ano, a temperatura emocional elevou-se ainda mais porque as pesquisas tornaram-se, na visão de parte do público, protagônicas, condutoras de opiniões, influenciadoras dos resultados dos pleitos. Assim, face ao desempenho sofrível dos institutos no primeiro turno, não é de surpreender a enxurrada de críticas que receberem, entre procedentes e equivocadas.

A pesquisa é um mero instrumento técnico de acompanhamento do processo eleitoral, que serve para apontar tendências, a partir de levantamentos sucessivos. Ela não projeta o futuro e, portanto, é incapaz de predizer os percentuais exatos que os candidatos obterão nas urnas.

E sempre haverá alguma discrepância entre as previsões dos institutos e os números oficiais, já que as pesquisas se baseiam no fato de que no mundo real trabalha-se com amostra e não com o universo.

O máximo que a pesquisa pode fazer é estabelecer um intervalo de variação para suas estimativas, dentro de certo nível estatístico de confiança, assim mesmo, sob a égide das probabilidades, vez por outra os números das urnas ficam fora desse intervalo.

Enfim, as pesquisas erram, mas o fazem em quantidade bem menor do que acertam. Carecem de aperfeiçoamentos, claro, mas não de amarras legais, como querem impor alguns. E não se deve exigir delas aquilo que elas não podem dar.   

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Maurício Costa Romão é economista. mauricio-romao@uol.com.br. http://mauricioromao.blog.br

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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