A TERCEIRA ALMA DO PT

31/03/2015

(Artigo publicado no Jornal do Commercio, Pernambuco, em 31 de março de 2015)

Maurício Costa Romão

Em março de 2013 o Datafolha detectou que a percentagem dos eleitores brasileiros que tinha preferência pelo PT era de 30%. Dois anos depois, em março de 2015, esta taxa caiu para 9%, o menor nível desde 1989.

A que se deve esse desgaste da sigla que foi referência para a democracia brasileira e sempre esteve na vanguarda das lutas sociais e políticas do país desde sua fundação?

O PT surgiu da base sindical do operariado paulista do fim da década de 70 e angariou protagonismo e admiração como um grande partido de esquerda que pregava o socialismo democrático como forma de organização social.

Com apoio de grande parte da população brasileira, em especial dos movimentos sociais, dos intelectuais de esquerda, dos católicos ligados à Teoria da Libertação, dos dirigentes sindicais e dos estudantes, a agremiação chegou ao poder em 2002, elegendo Lula presidente.

Os especialistas consideram a assunção do PT ao poder como o ponto de inflexão de sua exitosa trajetória. O partido deixa de ser de ruptura, programático, ideológico, e assume valores e práticas que se contrapõem à sua formação (André Singer fala da “segunda alma” do PT e Demétrio Magnoli, da “segunda fundação”).

Uma vez instalado no poder, o partido, embalado que foi no pragmatismo de resultados sindicais, logo aderiu à lógica capitalista, adotando uma política econômica de cunho ortodoxo. A guinada seria justificada para os militantes à luz da doutrina econômica leninista: fazer uso dos mecanismos puros de mercado, mas sem relegar os fundamentos socialistas.

Daí prá frente, a permanência no poder a qualquer custo presidiu a ação política e eleitoral da sigla, que estendeu seus tentáculos patrimonialistas sobre a máquina pública, aparelhando-a de tal sorte que em algumas instâncias os símbolos nacionais e petistas se confundiam. A conseqüência natural desse l’état c’est moi foi a associação da sigla a grandes escândalos de corrupção.

Não sem razão que os 12 anos de governos petistas, meritórios nos avanços de inclusão social, estão sendo agora revistos criticamente pelo eleitor.

Ademais, a estrela vermelha está cada vez mais arranhada em face do desprestígio da presidente Dilma Rousseff. As razões de sua débâcle são conhecidas: anúncios e/ou implementação de medidas contrariando o discurso de campanha, piora dos ambientes econômico e político do país e a roubalheira da Petrobrás.

A situação de desalento com o PT chegou a tal ponto que o partido perdeu pela primeira vez, na série histórica do Datafolha, a liderança de preferência para o PSDB no segmento que mais lhe devotava admiração: os jóvens (16 a 24 anos).

Pelo jeito, o PT vai precisar de uma “terceira alma”, ou uma “terceira fundação”, para ressurgir das cinzas.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Cenário Inteligência e do Instituto de Pesquisas Maurício de Nassau. http://mauricioromao.blog.br.mauricio-romao@uol.com.br

Um comentário
Zélia Carneiro

O PT vendeu suas duas almas para o diabo. A terceira já está comprometida com ele. Não tem salvação.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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