A SURPRESA FOI A REAÇÃO, NÃO A INSATISFAÇÃO

22/08/2013

Fonte: elaboração própria, com base em dados do Ipsos e blog do Estadão

Maurício Costa Romão

Desde abril de 2005 que o Ipsos Public Affairs, uma dos cinco maiores institutos de pesquisa do mundo, traz informações mensais sobre a opinião dos brasileiros acerca dos rumos do país.

O início da série estatística coincidiu com os percalços do escândalo do mensalão e, como decorrência, a quantidade de brasileiros que achava estar o país no rumo errado, embora decrescente mês a mês, era sistematicamente maior do que o número daqueles que pensavam o contrário.

Essa percepção negativa durou até novembro de 2007, com apenas três pequenas reversões (outubro e novembro de 2006 e janeiro seguinte). Em dezembro de 2007 o placar já registrava empate: 50% entendiam que o Brasil estava no rumo certo e 50% discordavam.

A partir daí e até os protestos de junho deste ano, o percentual “de rumo certo” foi sempre superior ao “de rumo errado”, com um extraordinário pique de diferença registrado em dezembro de 2010, ainda na euforia do final do governo Lula e da expectativa da posse da presidente Dilma Rousseff: 81% a 19%.

O gráfico verde, que encabeça o texto, retrata a trajetória do percentual de rumo certo, representada pela linha azul, a partir de seu ponto máximo da série, em dezembro de 2010.

Há dois movimentos nítidos nessa trajetória, apesar das oscilações mês a mês: um, acentuadamente declinante, do início da série (81%) até outubro de 2011(60%), um ano depois da eleição. Outro, moderadamente ascendente, desde esse mês até dezembro de 2012 e início do presente ano.

O resultado líquido desses dois movimentos resultou num percurso razoavelmente descendente da confiança da população nos rumos no país, entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012, o que se pode constatar por uma ligeira inclinação para baixo de uma linha tendencial (não mostrada, com quociente angular de -0,12).

De qualquer forma, de dezembro de 2010 a dezembro de 2012, ocorreu uma diminuição de 14 pontos de percentagem no percentual de confiança dos brasileiros nos destinos do país. Ao se começar o presente ano de 2013 já havia, portanto, certo desalento acumulado da população com a situação que se vivenciava.

De janeiro deste ano de 2013 em diante, o traçado da linha azul de declarações de rumo certo, conforme se observa no gráfico em apreço, é visivelmente descendente, tendo queda abrupta em junho, culminando com uma configuração geral da linha de tendência de todo o período (linha marrom escura) bem mais inclinada (quociente angular de -0,40).

O outro gráfico, o de cor rosa, abaixo, desfila números do Instituto Ipsos apenas adstritos ao ano corrente, desta feita opondo os sentimentos de confiança com os de desconfiança dos brasileiros nos rumos da nação.

Fonte: elaboração própria, com base em dados do Ipsos e blog do Estadão

Nota-se que de janeiro a maio as percepções de rumo certo, embora superiores às de rumo errado, sinalizam trajetória de queda, não obstante de contorno bem atenuado.

A mudança abrupta, a que se fez menção acima, ocorre em junho, mês dos protestos, quando, pela primeira vez em seis anos, as declarações de brasileiros de que o país estava no rumo errado (57%) foram superiores às que achavam o contrário (43%).

No mês seguinte, em julho, o placar desfavorável ao azul do rumo certo persiste, cravando de 58% a 42%, mas esta oscilação está dentro da margem de erro da pesquisa de três pontos de percentagem, para mais ou para menos. Nos seis anos aludidos, a última vez que esse pessimismo se havia expressado foi em setembro de 2007, coincidentemente com a mesma intensidade (58% de rumo errado a 42% de rumo certo).

No geral, entretanto, esses 42% de brasileiros que declararam confiar nos rumos do país representam apenas um pouco mais da metade do contingente de dezembro de 2010, um mês antes do início do atual governo.

Os dados reforçam a análise de que os protestos de junho resultaram de um paulatino acúmulo de insatisfação com a situação do país, sendo o aumento do preço das passagens de ônibus, em São Paulo, apenas o leitmotiv das manifestações de rua. O formato e a magnitude da reação do povo é que deixaram a todos surpresos.

A pesquisa do Ipsos também reafirma o que outros institutos já detectaram: a “insatisfação com os rumos do país” significa repúdio à má qualidade dos serviços públicos, em particular, os de saúde e educação, à violência, à corrupção.

O foco nesses itens indica que a aparente “demanda popular difusa” nos protestos não encontra respaldo na evidência empírica. A população exige mais cidadania e isso passa pelo combate à corrupção e pelas melhorias indicadas em: saúde, educação, transporte e segurança.

Trata-se de pauta específica endereçada ao poder público governamental, nos seus três níveis. Urge atendê-la para minorar o desalento que toma conta do cidadão brasileiro.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br, http://mauricioromao.blog.br.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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