A RESSONÂNCIA DAS REDES

30/01/2012

 

Priscila Krause

Blog do Inaldo Sampaio, 27/012012

O Recife é uma cidade política por natureza. A nossa história conta momentos marcantes de grandes embates, que formaram no imaginário brasileiro o desenho de um povo apaixonado pela disputa de ideias, pronto a empunhar bandeiras e a defender seus ideais. O recifense não foge da boa luta política – pelo contrário, se é preciso levantar a voz, aqui ninguém se cala. E basta um motivo justo para despertar a indignação característica da mobilização popular.

Neste sentido, a onda de protestos que movimenta a cidade através das redes sociais, suscitando cobranças e respostas imediatas do lado de fora da internet, guarda semelhança irretocável com a tradição histórica que vem de longe. Mas é a mesma chama libertária, altiva e atuante que se vê.

A Praça São José dos Manguinhos, nas Graças, acolheu protestantes, em novembro, questionando seu uso como estacionamento. Por causa da repercussão de mobilização iniciada no blog Acerto de Contas e nas redes sociais, a Prefeitura resolveu agir, ainda que de maneira inadequada: atirou gelo-baiano na calçada para impedir a ocupação dos carros.

Antes do final do ano, o mesmo blog denunciou o recebimento retroativo de recursos alusivos a auxílio-moradia, por parte de ex-deputados estaduais. Mais uma vez a repercussão tomou conta dos perfis, logo saltando do meio virtual para a mídia tradicional. O mal-estar fez com que alguns anunciassem, depois da pressão, a devolução do dinheiro.

Um fator positivo desse tipo de democracia participativa é a independência estrutural que permite a vigilância mesmo quando os poderes da democracia formal estão em recesso. É o que tem movimentado, em janeiro, a Câmara de Vereadores do Recife, em dois casos que alcançam efeitos ainda não de todo visíveis para o Parlamento Municipal. Aproveitar o momento e revitalizar a imagem da instituição é um imperativo para todos os atuais detentores de mandato.

O primeiro caso foi o do aumento de 62% para o salário da próxima legislatura, em 2013, que seria aplicado para os eleitos este ano. Pelo qual não me eximo da responsabilidade. Mas a forte reação das mídias sociais deixou claro, ao menos para mim, que nós erramos ao não dimensionar a devida importância do reajuste. Por isso me posicionei, aos primeiros sinais de insatisfação das pessoas, dentro e fora das redes sociais, pela reabertura do debate assim que retomados os trabalhos parlamentares, em fevereiro.

Outro episódio alvo de críticas no recesso foi o aumento da verba de combustível de R$ 2.300 para R$ 3.700 mensais por vereador. Novamente, após o reclamo generalizado nas redes e na imprensa, a própria Mesa Diretora sequer esperou o retorno das férias, e, acertadamente, antecipou a anulação da medida.

O aumento das passagens de ônibus no Grande Recife é o assunto da vez no Facebook e no Twitter. Aos poucos, a improvisação das redes sociais vai se organizando, e a tendência é que os movimentos de rua – a exemplo do Occupy Wall Street – sejam robustecidos e multiplicados a partir de insatisfações e reivindicações surgidas no ambiente virtual.

A evolução da política com a democracia digital é um processo irrevogável. A depuração ética não se limita a isso, claro. Mas o simples alargamento da transparência, ao lado do crescimento da participação conectada, contribui bastante para que o cidadão conheça melhor seus representantes, fiscalizando sua atuação e cobrando coerência e correção publicamente.

Com a alegria de quem aposta neste fantástico atributo desde o início, acredito que a ressonância das redes é uma das melhores notícias dos últimos anos para o aprimoramento democrático.

*Priscila Krause é vereadora do DEM e líder da oposição na Câmara

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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