A PRÉVIA NA VENEZUELA

04/03/2012

Marcos Coimbra

Blog do Noblat,15/02/2012

Já se disse que, com a qualidade da oposição que enfrentava, não era mistério que o governo Lula tivesse tanta aprovação e que sua maioria no Parlamento fosse folgada. Seria um exagero tudo atribuir aos erros dos adversários, mas a explicação tem algo de verdade – pelo menos para o que aconteceu no segundo mandato. E continua a valer para o governo Dilma.

Embora sempre repita que precisa se repensar e mudar, a oposição brasileira se mostra incapaz de passar da teoria para a prática. Fala muito e faz pouco.

Suas principais lideranças se comportam como se ainda estivéssemos na era da notícia impressa. Como se, para fazer política com competência, bastasse conquistar a simpatia de editores e colunistas, e aparecer bem nos jornais e revistas. (Algo que conseguem até com sobra, mas não adianta.).

Apequenadas e desanimadas, gastam seu tempo em brigas e conclamações à unidade. Falta-lhes acordo sobre o que dizer, pois não sabem se querem apresentar-se como proposta de futuro ou de retorno ao tempo glorioso – que só existe para elas – em que estavam no poder.

Seu problema, no entanto, não é de discurso (ou de falta dele). O que precisam é de uma estratégia para (re)conquistar a presidência da República. Claramente elaborada e à qual se dediquem sem preguiça e salto alto.
Estamos vendo na Venezuela um exemplo de ação oposicionista que elas deveriam analisar. Vindo justo de um país que tem sido tão depreciado pelos “formadores de opinião” brasileiros.

Acabou de ser realizada, domingo, uma prévia eleitoral única naquele país. Pela primeira vez, o conjunto do eleitorado venezuelano foi convocado a se manifestar sobre quais candidatos preferia para diversos cargos, dentre os muitos que a oposição poderia lançar.

A escolha mais importante foi, obviamente, do candidato oposicionista que vai enfrentar Hugo Chávez na eleição presidencial de outubro. Venceu o favorito, Henrique Capriles, governador do estado de Miranda.

Ao contrário do que gostariam alguns no Brasil, ele se apresenta como candidato de centro-esquerda, e diz que pretende fazer um governo inspirado no brasileiro, com a mesma visão da economia e atuação social. Nada indica, portanto, que professe as ideias de nossos “liberais”.

Isso é o de menos. O relevante, para nós, é o caminho que as oposições venezuelanas trilharam para chegar a essas prévias.

Em primeiro lugar, se entenderam. Perceberam que, sozinhos, os diferentes partidos e facções oposicionistas não chegariam a lugar nenhum. Resolveram formar o que chamaram Mesa da Unidade Democrática, MUD, que teria um candidato único.

Foram além. Se propuseram uma prévia “aberta”, na qual poderia votar qualquer eleitor do país, independente de filiação. Seria uma maneira de dar lastro popular ao nome que lançassem e mobilizar o eleitorado, aquecendo os ânimos para outubro.

Também ao contrário do que imaginaríamos – pois somos permanentemente levados a ver o “chavismo” como ditadura – as prévias foram realizadas com ampla colaboração da Justiça Eleitoral (que cedeu à MUD listas eleitorais e alugou urnas) e apoio logístico e de segurança das Forças Armadas.

Ninguém, no governo, as impediu ou mesmo dificultou – ainda que, naturalmente, fossem contra. Nenhum eleitor denunciou o cerceamento de seu direito de votar.

As prévias foram um sucesso, especialmente pelo comparecimento. Cerca de 2,9 milhões de pessoas saíram de casa – sem obrigação – para votar, o que representa quase 17% do eleitorado total. (Apenas para comparar: nos Estados Unidos, na maioria das já realizadas, a participação nas prévias republicanas tem oscilado entre 10% e 23% – lembrando que a maioria é fechada, isto é, restrita a eleitores registrados do partido).

A premissa institucional para tudo foi haver uma legislação eleitoral que não impedisse o processo político de seguir seu curso. O inverso do que temos no Brasil.

Se nossas oposições quisessem pensar em algo semelhante, enfrentariam a rigidez e o burocratismo da legislação (e da Justiça Eleitoral) que temos. Com seu artificialismo e seu viés desmobilizador, prevaleceria o entendimento de que prévias abertas, feitas sete meses antes da eleição, seriam “propaganda antecipada”.

É (bem) possível que Chávez vença, no voto, a eleição. Mas a oposição venezuelana deu provas de maturidade e de inventividade estratégica que renderão bons frutos. Se não agora, mais para adiante.

Enquanto isso, no Brasil, as oposições…

 

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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