A pesquisa eleitoral de tracking

04/11/2015

 

Maurício Costa Romão

Prezado Jamildo

Na matéria sobre as eleições na OAB, postada hoje no seu blog, a chapa “É Hora de Mudar” acusa a concorrente “A Ordem Avança” de cometer fraude eleitoral, in verbis:

“A Chapa “A Ordem Avança” comete fraude eleitoral ao divulgar “tracking” como pesquisa eleitoral. “Tracking” é uma pesquisa diária, com alcance menor de eleitores e, portanto, não revela o pensamento do conjunto dos que estão aptos a votar”.

 Do ponto de vista técnico essa acusação não procede.

Das pesquisas eleitorais quantitativas, a de tracking (rastreamento, trilha, caminho), tem a característica distintiva de ser de curta periodicidade (diária, em geral), mas possui os mesmos requisitos de desenho metodológico de uma pesquisa convencional (survey).

Essa modalidade de levantamento contínuo é altamente recomendada – para não dizer indispensável – como dispositivo de medição de movimentos ondulatórios dos sentimentos dos eleitores na reta final das campanhas políticas, possibilitando, assim, intervenções rápidas e redirecionamentos estratégicos de curtíssimo prazo por parte dos núcleos decisórios das campanhas.

O grande diferencial do tracking, relativamente à pesquisa usual, reside na inclusão diária de novas informações à amostra, concomitantemente com o descarte de dados mais antigos, utilizando-se, para tanto, o princípio estatístico de médias móveis.

 Dessa forma, todo dia um novo contingente de eleitores é pesquisado, e as entrevistas mais antigas são eliminadas do conjunto (sempre se preservando, contudo, a inteireza da amostra). O tracking tem, portanto, um caráter de processo, ao invés de representar uma fotografia de momento, como é próprio do survey tradicional.   

É oportuno dar um exemplo dessa sistemática, para sua melhor compreensão.

Imagine-se uma pesquisa com 900 questionários, sendo realizada em três dias sucessivos com 300 entrevistas por dia. Ao fim do terceiro dia já se tem a amostra completa e o correspondente resultado geral da pesquisa na sua modalidade convencional.

No quarto dia, entretanto – e aí se estabelece o diferencial metodológico do tracking –, novas 300 entrevistas são feitas, e as primeiras 300, realizadas no primeiro dia, são desconsideradas.

No quinto dia repete-se o procedimento: faz-se nova aplicação de 300 questionários e se descartam os dados mais antigos (aqueles do segundo dia), e assim por diante, possibilitando ter-se sempre a amostra completa e atualizada de 900 votantes a cada dia que passa, graças à média (que sintetiza os percentuais de intenção de votos) que se vai movendo (rolling average) horizontalmente nesse processo dinâmico de inclusão/exclusão de informações.

Portanto, o tracking revela sim “…o pensamento do conjunto dos que estão aptos a votar”.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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