A GRÉCIA DEVE SEGUIR NEGOCIANDO PACOTES DE AUSTERIDADE COM A EUROPA E COM O FMI?

23/02/2012
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Carlos Eduardo Martins

Folha de S.Paulo, 18/02/2012

não

Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia que foi economista-chefe do Banco Mundial, afirmou, com razão, em seu livro “Globalization and its discontents” (de 2001, publicado no Brasil como “A Globalização e seus Malefícios” pela editora Futura), que as políticas do FMI, em vez de solucionarem as crises econômicas, contribuem para gerá-las ou aprofundá-las.

Ele estava se referindo, sobretudo, às experiências de gestão macroeconômica do FMI na América Latina e na África (desarticulando a engrenagem de crescimento a partir dos anos 1980) e à sua atuação desastrada na Rússia e no leste asiático durante os anos 1990.

Tais políticas sacrificavam o desenvolvimento e aprofundavam as assimetrias tanto internacionais quanto nacionais.

A crise europeia e as políticas que a “troica” (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) quer impor para resolvê-la evidenciam, mais uma vez, o compromisso com a “financeirização”, em detrimento do bem-estar das grandes maiorias e do desenvolvimento, que permeiam as políticas do capitalismo de Estado europeu e anglo-saxão contemporâneo.

Tal “financeirização” teve a sua origem na onda neoliberal que varreu essas regiões a partir do anos 1980, mudando o paradigma de políticas públicas. Nela, o Estado impulsiona políticas que criam altos níveis de desequilíbrio macroeconômico e destroem o setor produtivo. Ele também intervém, através da dívida pública, para transferir riqueza ao setor financeiro.

Isso resulta na drástica diminuição das taxas de investimento, do crescimento econômico e na elevação do desemprego.

No Europa, podemos observar que o gasto público se elevou de 38,2% para 51% do PIB entre 1974 e 2010 -contrariando a crença difundida de que o neoliberalismo reduziu a intervenção do Estado na economia.

As taxas de investimento caíram, na área do euro, de 25,8% para 21,5% do PIB entre 1970 e 2000. O crescimento econômico per capita nos 30 países europeus alcançou modestos 1,8% ao ano entre 1999 e 2008, bem abaixo dos 3,0% ao ano obtidos pela economia mundial no período ou da performance europeia entre 1939 e 1973 (2,7% ao ano).

A recente crise europeia começou com a imposição do euro como moeda única, sem o desenvolvimento de fundos compensatórios para gerar equilíbrios macroeconômicos que substituíssem o desaparecimento das políticas cambiais nacionais.

Enormes déficits comerciais foram gerados a favor da Alemanha na década de 2000, em função de vantagens obtidas nos custos trabalhistas, sobretudo mediante contenção salarial, e não através de diferenciais de produtividade.

Tais déficits se tornaram uma grande oportunidade de negócio para banca estatal e privada europeia através da dívida pública na periferia europeia (Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda).

Tal cenário levou à explosão da dívida e ao colapso da capacidade de pagamento desses países.

Refinanciar essas dívidas através de juros altos, de cortes orçamentários que penalizam os gastos sociais e os investimentos públicos, de redução salarial, de elevação da jornada de trabalho e de uma taxa de desemprego que chega a atingir mais de 40% da população jovem em países como a Grécia significa levar ao colapso os fundamentos sociais da União Europeia.

Sua consolidação exige o aprofundamento da trajetória de convergência do PIB per capita dos países da região, não a sua liquidação. Isso só pode ser alcançado com a socialização democrática do Estado e de seus altíssimos níveis de intervenção na economia.

CARLOS EDUARDO MARTINS, 46, doutor em sociologia pela USP, é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autor de “Globalização, Dependência e Neoliberalismo na América Latina” (Boitempo, 2011)

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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