A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL E O SEGUNDO TURNO

22/09/2010

Por Maurício Costa Romão

Os analistas políticos são praticamente unânimes em considerar muito remota a chance de haver um eventual segundo turno na eleição presidencial deste ano.

De fato, levando-se em conta as pesquisas eleitorais nacionais realizadas pelos quatro grandes institutos que cobrem a eleição de 2010 (Sensus, Ibope, Datafolha e Vox Populi), desde agosto, especialmente a partir da segunda quinzena, as intenções de voto consignadas a Dilma Rousseff vem sendo sistematicamente maiores do que a soma daquelas obtidas por José Serra e Marina Silva. Essa consistência numérica, ceteris paribus, garantiria vitória em primeiro turno para a candidata petista.

A diferença de intenções de voto a favor de Dilma estaria ao redor de 13,5 pontos de percentagem (51% a 37,5%), considerando-se a média dos dois últimos levantamentos do Datafolha (13-15/09) e do Ibope (14-16/09), cujos resultados são praticamente iguais.

Ao cabo de cada eleição, os tribunais eleitorais fazem as totalizações dos votos desconsiderando os consignados em branco ou anulados, quer dizer, computando apenas os votos válidos. Sob esta modalidade, a legislação eleitoral estabelece que determinada candidatura majoritária estará eleita no primeiro turno se obtiver 50% mais um dos votos válidos.

Assim, para adequação das pesquisas às normas eleitorais é preciso transformar intenções de voto totais em votos válidos.

Nesse contexto, ainda segundo a média dos números do Datafolha e do Ibope, Dilma teria cerca de 57,6% dos votos válidos contra 42,4% da votação conjunta de Serra e Marina (mais “outros”candidatos), uma diferença de 15,2 pontos de percentagem. 

Entretanto, na configuração de votos válidos, em que disputam duas forças – simplificadamente, para efeito expositivo, “situação” e “oposição” – o crescimento da quantidade de votos de uma força significa decrescimento da outra, na mesma proporção. A conquista de um voto para uma equivale a menos um voto para a outra.

Então, tudo o mais permanecendo constante, para levar o pleito para o segundo turno, a oposição (incluídos nesta categoria todos os candidatos do lado em desvantagem) precisaria crescer mais do que 7,6 pontos de percentagem, que é metade de 15,2, a diferença dela para a situação.

Não existe outra alternativa para se tirar essa diferença, já que se trata de votos válidos disputados entre dois grupos: a desigualdade de intenção de votos precisa ser zerada, no mínimo.

O que pode, talvez, auxiliar nesta empreitada numérica são as eventuais discrepâncias entre as estimativas das pesquisas e as totalizações oficiais, o que só se vai saber se elas existiram post factum, depois da eleição.

Dependendo de como essas discrepâncias de dêem, pode haver um empurrão para a oposição chegar ao segundo turno, complementarmente aos seus méritos próprios de avançar alguns pontos de intenção de votos, tirando-os proporcionalmente do adversário. Como isso pode acontecer?

O cientista político Alberto Carlos Almeida (“Erros nas pesquisas eleitorais e de opinião”) comparou estimativas de 562 pesquisas eleitorais (realizadas às vésperas ou bem próximas dos pleitos) com resultados oficiais, em nove eleições majoritárias no Brasil, estados e municípios (presidente, senador, governador e prefeito), de 1986 a 2002.

Nesse cotejo, descobriu que há um padrão sistemático de erro ao se confrontar as pesquisas com os resultados das urnas: a superestimação dos percentuais de intenção de votos do primeiro colocado, independentemente de sua cor partidária ou ideológica.

De fato, em nada menos do que 65% das pesquisas estudadas o candidato primeiro colocado obteve percentual mais elevado do que o registrado pelas urnas. Por outro lado, em apenas 28% das pesquisas o primeiro colocado teve seu percentual subestimado, e em 7% os percentuais de intenção de voto e números oficiais foram iguais.

Um exemplo mais simples, porém elucidativo da evidência empírica constatada pelo cientista mencionado, ocorreu na eleição para Prefeito do Recife, Pernambuco, em 2008.

Foram oito os institutos de pesquisa que “cobriram” a eleição de 2008, na última semana do pleito, divulgando dados registrados no TRE.  Todos os institutos previram percentuais de intenção de votos para João da Costa, o candidato primeiro colocado nas pesquisas, acima daqueles que foram registrados nas urnas. Um caso típico, portanto, da superestimação acima aludida.

A que se deve esse fenômeno? Segundo o mesmo cientista os erros acontecem em todos os estados e municípios, mas são comprovadamente maiores nos lugares onde a escolaridade é mais baixa. As pessoas desse nível tendem a revelar nas pesquisas preferências pelo primeiro colocado, porém na hora de votar acabam errando, votando em branco ou anulando o voto.

Outro erro sistemático encontrado no estudo de Almeida aponta para subestimação dos percentuais do segundo colocado nas pesquisas: em 50% dos levantamentos, o candidato segundo colocado ficou com um percentual abaixo do registrado nas urnas.

Aqui também cabe, novamente, à guisa de ilustração, trazer à baila a eleição majoritária de 2008, no Recife. Com efeito, todos os oito institutos que fizeram previsões na última semana do pleito subestimaram o segundo colocado nas pesquisas, o candidato Mendonça Filho, já que todos os percentuais projetados foram menores do que o dado oficial.

Contudo, há que se ter presente, neste caso do segundo colocado, que se observa também nas pesquisas uma elevada proporção (40%) de superestimação dos percentuais vis-à-vis os números das urnas, enquanto que em 10% os percentuais de intenção de voto e números oficiais foram iguais.

Em resumo, as pesquisas indicam que as chances da oposição chegar ao segundo turno dependem, neste momento, de aumentar suas intenções de voto em 7,6 pontos de percentagem, no mínimo.

Este desafio, a apenas 10 dias da eleição, árduo sob todos os títulos, pode se facilitado pelas probabilidades, relativamente altas, das pesquisas superestimarem os percentuais da situação e subestimarem os da oposição, diminuindo, assim, o esforço de recuperação do lado em desvantagem.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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