A DERROTA DE OBAMA

05/11/2010

Editorial da Folha de S.Paulo, 04/11/2010

Em vitória eleitoral marcante, republicanos conquistam a Câmara e avançam no Senado, mas ainda carecem de líder para disputar a Presidência

A derrota de Barack Obama e de seu Partido Democrata nas eleições legislativas e estaduais norte-americanas de anteontem só não foi completa porque a sigla governista conseguiu manter uma tênue maioria no Senado. Estarão, no entanto, sujeitos a constantes obstruções regimentais por parte dos republicanos, que superaram a barreira dos 40% necessários para impedir os rivais de impor sua agenda na Casa.

Já na composição da Câmara, a insatisfação dos eleitores se fez ouvir em alto e bom som. Na maior mudança partidária desde 1948, os democratas perderam 60 cadeiras, num total de 435, para os republicanos -número que ainda pode subir até o término da apuração. Com isso, passaram de uma confortável maioria a uma situação desesperadora.

A onda pró-republicana também chegou às disputas estaduais, onde a oposição tomou ao menos nove governos do Partido Democrata, garantindo o controle da maioria dos Estados.

Configura-se assim o maior revés eleitoral dos democratas desde a chamada “revolução republicana” de 1994, quando os liberais conservadores tomaram o controle da Câmara e do Senado, dando início a um domínio parlamentar que perdurou por 12 anos. Na ocasião, também havia o pano de fundo de uma controversa tentativa de reforma do sistema de saúde -embora no pleito atual tenham pesado sobretudo a lenta recuperação econômica e a taxa de desemprego próxima dos 10%.

A vitória republicana também veio aliada ao triunfo de alguns candidatos identificados com o Tea Party, movimento ultraconservador que tem como mote “devolver a América aos americanos”, em oposição às políticas “socialistas” do governo.

Por fim, um fato curioso, que aumenta o impacto simbólico do fracasso eleitoral: entre os assentos no Senado perdidos para a oposição está aquele que até 2008 era ocupado pelo próprio Obama.
É cedo no entanto para escrever o epitáfio político do presidente. Primeiro, cabe lembrar que a retumbante derrota democrata de 1994 não se repetiu dois anos depois -e Bill Clinton conseguiu reeleger-se à Casa Branca. Segundo, o Partido Republicano carece, a dois anos da eleição presidencial, de um postulante para suceder Obama, capaz de unir e energizar a base partidária.

Para que o atual presidente se mantenha no cargo terá de colher o quanto antes bons resultados na economia. A criação de empregos é a prioridade nacional -e já foi assumida pelo futuro presidente da Câmara, o republicano John Boehner. Mudanças recentes na equipe econômica, aliadas à debacle eleitoral, podem precipitar a adoção de novas medidas.

A divisão de poder num país onde o Legislativo não costuma subordinar-se aos desígnios do Executivo pode ser benéfica se significar a retomada de algum nível de diálogo bipartidário após anos de uma crescente polarização, conforme prometeram ontem os dois lados. Na antessala da eleição presidencial de 2012, porém, esse cenário parece pouco provável.

Plausível é que a derrota leve o presidente Obama a deixar em segundo plano a agenda progressista, inclinando-se por diretrizes mais conservadoras.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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