A CRISE SE ALASTRA

27/09/2011
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Editorial da Folha de S.Paulo, 23/09/2011

Líderes mundiais ainda não chegaram a uma coordenação eficiente para enfrentar a piora do quadro econômico global

Neste final de semana, as autoridades econômicas do mundo estarão reunidas nos Estados Unidos, em encontros do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Não têm faltado reuniões de organismos internacionais, sem que, no entanto, delas tenha resultado coordenação eficiente para enfrentar uma crise que se agrava. O quadro de endividamento crônico de governos europeus redundou em risco agudo de tumulto bancário. Não se trata aqui dos bancos da quebrada Grécia, mas de instituições financeiras de países centrais do continente: a Itália e a França.


Há dois meses, tornaram-se comuns alertas sobre a lenta corrida contra os bancos italianos. Investidores e correntistas aos poucos transferem de lá os seus fundos, dado o temor de que o país encontre dificuldade de refinanciar a sua dívida. Note-se que o crédito italiano apenas não se deteriorou mais devido ao que, na prática, são empréstimos de emergência do Banco Central Europeu.
Ficara, enfim, claro que as autoridades europeias haviam subestimado gravemente o problema grego; reconheceu-se, em parte, que haveria inadimplência. Mas era tarde. Há outras delongas, como manter em suspenso a decisão sobre financiar ou não a Grécia até o mês que vem.
Há impasses como o que impede a criação de um fundo transnacional europeu de salvação de governos falidos ou sufocados. Inação e inépcia levaram os chamados mercados a evitar ainda mais, em suas movimentações gigantescas de recursos, bancos expostos a governos da eurozona.
Caem as ações de bancos europeus, que relutam a emprestar entre si de modo visto apenas no início de 2009, quando ainda era grande a tensão derivada do colapso de 2008. Tanto escassearam os fundos em dólares para grupos financeiros europeus que foi necessária a intervenção de cinco bancos centrais, que abriram linhas de crédito de emergência.
As lideranças políticas europeias e americanas têm grande responsabilidade por tal degradação. Os europeus, pelos motivos já citados, por sua incapacidade de remediar um problema que se alastrou de modo extenso.
Os americanos, por levarem pânico a uma economia que, embora de modo medíocre, se recuperava -foi o caso do impasse parlamentar que quase levou os EUA à inadimplência. Também por não perceberem quão anêmica era a recuperação da crise. O plano de Barack Obama veio tarde e deve ser insuficiente. Tende a tornar-se menos eficaz quando passar por um Congresso hostil.
As duas maiores economias do mundo, Estados Unidos e Europa, tendem a crescer menos ainda, tragadas por arrocho fiscal e choques de confiança. Grandes bancos europeus estão sob suspeita. O restante do mundo desacelera também. O ciclo vicioso seguirá ainda mais veloz enquanto não se der solução à sangria grega e à da banca europeia.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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