A CONTROVÉRSIA DOS 17%

25/04/2014

Maurício Costa Romão

Publicação de matéria assinada por Fernando Rodrigues na Folha de S.Paulo (FSP), no dia 21 do corrente, sob o título “Rivais empatam em cenário só com eleitores que os conhecem”, tem gerado algumas contestações.

A matéria faz uso da pesquisa do Datafolha de 2 e 3 de abril e mostra as intenções de voto para presidente apenas entre os eleitores que conhecem “muito bem” ou “um pouco” os três principais pré-candidatos, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos.  

No universo que conhece os três postulantes, Eduardo lidera as intenções de voto com 28%, Dilma vem a seguir com 26% e Aécio tem 24%.  Este resultado é bem diferente daquele apresentado na pesquisa completa, na qual Dilma aparece na frente com 38%, Aécio pontua 16% e Eduardo alcança 10% (os outros candidatos somam 6%).

As reações não tardaram. Apenas à guisa de ilustração, tome-se o comentário do deputado federal Pedro Eugênio (PT-PE) no dia seguinte à publicação do referido texto:

Eu nunca vi esse tipo de pesquisa, porque o eleitorado ele não pode ser separado. Do ponto de vista metodológico essa pesquisa é uma forçada de barra para poder divulgar um número que seja mais desfavorável a Dilma” (Folha de Pernambuco, 22/04/2014).

Logo depois, dia 23, há uma nota sobre o assunto na coluna Painel, da FSP, assinada por Vera Magalhães:

“O QG dilmista considerou impróprio o cruzamento do Datafolha que mede a intenção de votos no grupo dos que conhecem bem os três principais candidatos a presidente. Diz que o segmento, diminuto, não reproduz as condições socioeconômicas e geográficas do universo do eleitorado”.

Não há nenhuma forçada de barra, nem impropriedade na metodologia adotada pelo Datafolha!

O que fez o instituto? Inicialmente inquiriu cada um dos 2.637 entrevistados se conhecia ou não os candidatos listados. Depois perguntou (só para os que disseram conhecer) se conhece muito bem, conhece um pouco, ou conhece só de ouvir falar.

Em seguida, descartou os que responderam conhecer só de ouvir falar e se concentrou naqueles que afirmaram que conhece muito bem e conhece um pouco. Neste subconjunto, composto por 448 eleitores (17% dos entrevistados), verificou como tais eleitores declararam suas intenções de votos entre os três principais pré-candidatos.

Como se vê, procedimento absolutamente normal e usual de cruzamento de dados em pesquisa.

Qual é o problema desse exercício? Apenas um: o número de entrevistados do subconjunto é pequeno (448 eleitores que conhecem muito bem e conhecem um pouco os três candidatos) e, por via de consequência, a subamostra, embora ainda representativa, espelha menos o universo, exigindo uma margem de erro maior.

Pare este subconjunto menor a margem de erro aumenta para cinco pontos de percentagem, enquanto para a pesquisa como um todo (2.637 questionários) a margem é de apenas dois pontos. Mas, justiça se faça, a matéria da FSP chama à atenção para essa diferença de margens em duas ocasiões no texto.

Com cinco pontos de margem de erro, os três pré-candidatos estão tecnicamente empatados nessa subamostra. Mas quando são feitas simulações para o segundo turno os resultados estão fora dessa margem, apontando diferenças reais de intenção de votos: a oposição derrotaria Dilma com larga vantagem (Eduardo 48% a 31% e Aécio 47% a 31%).

A reação a esses resultados do Datafolha está refletida em outra colocação do deputado Pedro Eugênio, na matéria citada, em que o parlamentar refuta os números e diz que a pesquisa “tenta induzir o eleitorado brasileiro”:

“O que se quer (é, MCR) induzir que se todo mundo fosse 100% conhecido o resultado do universo seria esse…”

Por trás desse protesto, supõe-se, está a preocupação com o grau de conhecimento dos atuais postulantes presidenciais, no presente estágio da pré-campanha. Segundo a mesma pesquisa do Datafolha, Dilma, por sua condição de incumbente, já é conhecida por 99% dos eleitores, ao passo que Aécio o é por 75% e Eduardo por 58%.

Acusações de indução à parte, a questão do conhecimento dos candidatos é de grande importância nos pleitos eleitorais. Com efeito, o eleitor pode votar ou não em quem ele conhece, mas, normalmente, não vota em quem não conhece.

O candidato ser conhecido, contudo, é condição necessária, porém não suficiente para receber votação. Para ter voto é preciso mais que aparecer, é preciso convencer.

Assim, o raciocínio do deputado Eugênio, do tipo post hoc ergo propter hoc”(depois disso, logo por causa disso), pode não ser respaldado pela evidência empírica. Quer dizer, “se todo mundo fosse 100% conhecido” o resultado, ainda assim, poderia ser outro completamente diferente do que se verificou agora nesse subconjunto destacado pelo Datafolha.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Contexto Estratégias Política e Institucional, e do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. mauricio-romao@uol.com.br

 

 

Um comentário
Alexandre Rands

Caro Maurício, O problema desse exercício com a pesquisa do Datafolha é que conhecer os três candidatos nesse momento é um atributo que já diferencia o indivíduo dos demais eleitores no seu comportamento político. Daí se criar um viés de seleção. Para que o resultado possa servir de projeção do resultado das eleições, dadas as imagens dos candidatos atuais, que é o que se quer com o exercício, esse público teria que ser suficientemente grande para que através de ponderações, mais sofisticadas do que os institutos de pesquisa sabem fazer (com a óbvia exceção da Datamétrica), possa se eliminar esse viés. Essa projeção é muito importante, mas sinceramente só confio quando conhecemos o seu autor e sabemos de sua qualificação para tal. Duvido que os pesquisadores à frente da pesquisa tenham conseguido ou mesmo se proposto a fazer.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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