A COEXISTÊNCIA COM A DESIGUALDADE

24/10/2011

Moisés Naím

Folha de S. Paulo, 21/10/2011

Ficar preso em um congestionamento de trânsito é mais suportável caso as demais faixas estejam se movendo. Ao observar os outros carros avançando, você tem a esperança de que sua vez por fim chegará.Mas se todas as faixas ficarem paralisadas por tempo demais, a paciência se esgota e o mau humor aflora.E se a polícia surgir e autorizar apenas alguns seletos veículos a deixar suas faixas, por um caminho aberto especialmente para eles, é provável que surja um tumulto.


Essa metáfora quanto às consequências políticas da mobilidade econômica foi proposta em 1973 pelo professor Albert Hirschman, para explicar as mudanças na tolerância dos países pobres com relação à desigualdade de renda. A ideia era simples e poderosa: nos países pobres, basta um mínimo de mobilidade social propelida pelo crescimento econômico para gerar grande paciência e estabilidade política. Quando as pessoas veem que seus parentes, vizinhos e conhecidos melhoram de vida, se dispõem a esperar que a vez delas chegue.
A metáfora oferecida por Hirschman sobre a situação dos países pobres também ajuda a entender o que está acontecendo hoje em algumas das nações mais ricas do planeta.
Exceto que, nesse caso, os “indignados” de Madri, as multidões do movimento “Ocupe Wall Street” ou os manifestantes italianos e gregos estão saindo dos carros e entrando em confronto com a polícia não só por conta do congestionamento em sua faixa de trânsito, mas, sim, porque seus carros estão indo para trás e hoje eles prestam mais atenção àqueles que continuam a avançar graças a truques, privilégios e filas furadas, coisas que costumavam tolerar ou ignorar.
Há mais de um século, Alexis de Tocqueville escreveu que a maior tolerância dos norte-americanos com relação à desigualdade, se comparados aos europeus, resultava da maior mobilidade social no país.
Mas isso acabou; ao menos por enquanto. A longa e pacífica coexistência com a desigualdade de renda e riqueza está chegando ao fim.
Os americanos estão furiosos com o fato de que os presidentes de algumas companhias do país ganham 343 vezes mais que o trabalhador médio dos EUA. Disparidades de renda assim não são novidade. A novidade é a intolerância ao fato de que alguns poucos concentram riquezas insondáveis, e os ricos continuam a se sair melhor mesmo em meio à crise.
Os ricos ou estão se beneficiando de resgates e outras medidas de estímulo ou são imunes à austeridade fiscal que os governos dos países em crise tiveram de adotar para estabilizar suas economias. E nada conduz mais gente às ruas em protesto do que cortes nos orçamentos governamentais.
Fica claro que estamos entrando em novo território político quando Mitt Romney, o candidato que lidera a disputa pela indicação presidencial republicana e inicialmente classificou o “Ocupe Wall Street” como “perigoso”, agora diz que “compreendo perfeitamente o que aquelas pessoas estão sentindo. O povo deste país está irritado”.
Sim, está. E as pessoas continuarão irritadas até que o trânsito comece a se mover de novo em sua faixa de rodagem. Ou pelo menos nas de seus amigos e vizinhos.

@moisesnaim

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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