A ASCENSÃO INTERROMPIDA

31/07/2015

Maurício Costa Romão

As pesquisas nacionais de avaliação da administração da presidente Dilma Rousseff, feitas neste ano pelo Datafolha, Ibope, MDA e Paraná Pesquisas, têm detectado declínio persistente do índice de aprovação ao governo (popularidade), medido pela soma dos percentuais de ótimo e bom.

Outro ponto em comum entre as pesquisas é que essa queda de avaliação positiva se espraia por todas as classes socioeconômicas e geográficas consideradas nos levantamentos, tais como sexo, escolaridade, renda, idade, região, natureza do município, etc.

Dentre essas classes merece destaque a que compreende o conjunto das famílias que ganha de 2 a 5 salários mínimos. Neste contingente se encontram, grosso modo, 40% das famílias brasileiras. É onde estão toda a classe D e parte da classe C, numa simplificação adaptada das classificações do IBGE. Com um pouco mais de esforço imaginativo pode-se considerar ainda que aí se aloja boa parte da decantada “nova classe média”.

Essas famílias foram, provavelmente, as mais beneficiadas pelo processo de transferência de renda dos governos Lula 1 e 2, e de Dilma 1.

Sustentado no crédito subsidiado e nos recursos destinados aos programas sociais, o mecanismo transmissor de renda permitiu acesso desses núcleos familiares a bens de consumo duráveis e a certos serviços, antes inacessíveis. Promoveu-se aí uma expressiva mobilidade econômica.

A contrapartida dos beneficiários materializou-se através de elevados índices de aprovação concedidos aos respectivos governos, principalmente ao de Lula 2, ensejando aos incumbentes renovarem seus mandatos.

Em meio à euforia consumista, e a despeito da advertência de imensa maioria dos especialistas de que a política econômica da era Lula se afigurava insustentável continuar em novo termo presidencial, devido à nova realidade pós-crise financeira de 2008, a presidente, eleita com folga em 2010, desconsiderou os argumentos “alarmistas” e preferiu surfar no imediatismo da popularidade herdada do seu antecessor.

A prudência do manejo fiscal e monetário do período Palocci-Meirelles foi substituída pela intensificação do populismo fiscal, ou populismo keynesiano, como chamam alguns, com ênfase na expansão do crédito ofertado pelos bancos estatais a juros baixos. O consumo passa a ser o motor do crescimento.

Ao cabo dos dois primeiros anos de governo, a presidente Dilma desfrutava de elevado conceito e exibia então ponderáveis índices de aprovação, mas aquele clima de confiança e entusiasmo do período lulista havia desaparecido.

O descontrole fiscal e monetário, o baixo crescimento do nível de atividade, a inflação beirando o teto da meta, o crescente endividamento das famílias, o dólar em trajetória de alta, a ausência de mobilidade nos centros urbanos, os problemas de infraestrutura e de serviços básicos, etc., etc., davam o pano de fundo a um novo ambiente que se formava, pleno de inquietações, ainda recônditas.

O choque de realidade veio com as manifestações de junho de 2013, no decorrer das quais a população saiu do armário e externou suas insatisfações com o status quo, exigindo mudanças nas ações do governo, ademais de, simplificadamente, demandar combate à corrupção, novas práticas políticas, e serviços públicos de qualidade. 

À época, o quadro de aflições e ansiedades foi emoldurado pelos desfechos do mensalão (os primeiros esguichos da Operação Lava Jato não haviam jorrado ainda), arremessando a cúpula do PT no epicentro da corrupção, o que, inevitavelmente, respingou no governo e na imagem da presidente. 

A popularidade de Dilma sofreu, então, um abalo de proporções sísmicas em conseqüência daquelas insurgências das ruas físicas, expandidas nas ruas virtuais, tendo seu índice de ótimo e bom despencado de 65% em março para 30% em junho, segundo o Datafolha.

Registre-se que o mau humor com o executivo naqueles instantes deu-se em todos os estratos socioeconômicos e geográficos, inclusive no seio das classes favorecidas com a política governamental. Na faixa de renda familiar de 2 a 5 SM, por exemplo, o baque de popularidade acompanhou a média nacional, com uma redução de 35 pontos de percentagem, entre março e junho, passando de 63% para 28%.

Através de desconstrução das candidaturas concorrentes, falseamento da realidade e propaganda enganosa, a presidente chegou à eleição de outubro de 2014 recuperando 12 pontos na sua popularidade, cravando 42% de ótimo e bom na pesquisa de véspera do segundo turno do Instituto Datafolha (vide gráfico que acompanha o texto).

O pleito foi ganho pela petista por margem apertada de votos e o país ficou eleitoralmente dividido ao meio. As insatisfações que motivaram as inquietudes do ano anterior permaneciam latentes e foram agravadas porque entre a eleição e a posse, e logo nos primeiros anúncios do novo governo, a mandatária tomou medidas que contradisseram praticamente tudo o que afirmara em campanha.

A partir daí a credibilidade da presidente é duramente afetada, conforme espelham as sucessivas quedas de popularidade detectadas pelas pesquisas. O gráfico do texto desfila a trajetória declinante dos índices de aprovação ao governo, considerando as avaliações conferidas pelo estrato de renda familiar de 2 a 5 SM e pelo conjunto da população.

Note-se que no estrato em apreço as avaliações ao desempenho da presidente são sempre mais severas do que no conjunto da população, não obstante ambas evoluam simetricamente, apesar de terem margens de erro diferenciadas. Em junho, por exemplo, no último levantamento do Datafolha, a popularidade de Dilma involui para apenas 9% no seio das famílias da nova classe média, um ponto numericamente abaixo da avaliação global.

A questão que daí emerge é: por que o segmento populacional que se beneficiou largamente do processo de transferência de renda e inclusão econômica das administrações petistas é tão ou mais crítico[1] ao governo atual do que a média da população?

Ou, colocado de outra forma, por que o estamento populacional que deu entusiástico suporte eleitoral ao lulopetismo abandonou a presidente Dilma Rousseff, conferindo-lhe notas de desempenho tão baixas?  

Dentre as possíveis respostas, algumas podem ser brevemente aventadas:

Primeiro, tornou-se evidente que os avanços das políticas públicas se desaceleraram, frustrando as aspirações do grupo, que esperava continuar galgando patamares mais elevados de acesso a bens e serviços;

Segundo, o núcleo tomou consciência de que havia ascendido na escala econômica, mas não completara a transição para a inclusão social. Quer dizer, havia tido mobilidade econômica, mas não mobilidade social. Esta, só se configura com ingresso a serviços públicos de qualidade, especialmente nas áreas de saúde, educação, segurança e mobilidade. Como bem disse Mauro Paulino, do Datafolha: a nova classe média é “bem servida em crediários e mal servida em cidadania”.

Terceiro, por conta de mudanças no perfil da demanda das famílias desse estrato, devido à melhoria da escolaridade, aumento de renda média e maior capacidade de consumo, as políticas sociais, incluindo as transferências de renda, perderam importância relativamente aos aspectos econômicos, conforme observado pelo cientista político Alberto Carlos Almeida.

Como resultante, os “patrocinadores” de tais políticas são menos reverenciados hoje do que foram no passado. O que significa que o famoso “legado de 12 anos do PT”, tão defendido e alardeado pelos seus adeptos, só encontrará eco nessas famílias se houver ampliação ou, no mínimo, manutenção das conquistas econômicas.

Quarto, as famílias em questão, mais vulneráveis às intempéries, sofrem pesadamente os efeitos da desastrosa política econômica do governo: disparada no custo de vida, renda real em queda, endividamento recorde e desemprego em alta. Tudo isso circundado por serviços públicos de péssima qualidade.

Quinto, assim como acomete atualmente toda a sociedade, a sensação crescente do grupo é de incerteza e desesperança. Além da crise econômica, magnificada pela estagflação por que passa o país, as crises ética e política se superpõem à primeira e desenham o desalentador quadro. O governo, isolado, emparedado, perdeu protagonismo para os demais poderes e se tornou incapaz de sinalizar saídas para a retomada da normalidade.

Não sem razão, pois, que ao atribuir notas baixíssimas de avaliação à presidente Dilma Roussef, a nova classe média nada mais faz do que externalizar o seu protesto com o fato de que as conquistas duramente amealhadas ao longo de anos estão sendo rapidamente dissipadas na atual administração petista.

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Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia, é consultor da Cenário Inteligência e do Instituto de Pesquisas Maurício de Nassau. http://mauricioromao.blog.br.mauricio-romao@uol.com.br


[1] Colocando os percentuais de ruim e péssimo detectados pelo Datafolha em um gráfico como o do texto, para o mesmo período, constata-se que a linha que representa a avaliação negativa do governo Dilma, onde se encontram os percentuais conferidos pela classe familiar de 2 a 5 SM, fica sempre acima da linha que reflete a média global, o que denota ser aquela classe mais rigorosa na avaliação negativa do governo. Por exemplo, em junho último, enquanto os eleitores na média geral atribuíram 65% de ruim e péssimo para a presidente, aqueles pertencentes ao núcleo de renda familiar de 2 a 5 SM cravaram 69%, quatro pontos a mais.

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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