BRIGA COM PESQUISA

19/06/2012

Eleitora

À parte da controvérsia envolvendo as pesquisas, incluindo as tentativas legais de controle de seus resultados, vale à pena um determinado candidato, partido ou comando de campanha brigar com os institutos por causa dos resultados desfavoráveis?

Maurício Costa Romão

Não, não vale! Para melhor explicação, é necessário um rápido introito. Todo planejamento de campanhas políticas hoje em dia inclui, necessariamente, a pesquisa eleitoral como ferramenta básica do seu núcleo central de estratégia e decisão. Esse reconhecimento da importância das pesquisas eleitorais por parte dos partidos, dos comandos de campanha, dos estrategistas de marketing político, dos candidatos, é também compartilhado pelo lado do público em geral, do consumidor das pesquisas, do eleitor, naturalmente, nestes últimos casos, sob uma perspectiva mais noticiosa, mais informativa.

Há, em síntese, um apreço quase geral do grande público, e dos envolvidos nas campanhas políticas, pelas pesquisas de intenção de votos. Esse ponto é razoavelmente pacífico. Elas são percebidas como auxiliares, complementares ao processo eleitoral. Ainda assim, os resultados das pesquisas geram muita controvérsia e manifestações variadas, principalmente por aferir possibilidades de vitórias (ganhos) e de derrotas (perdas) eleitorais. Tais resultados, como já vimos aqui nesta entrevista, agem diretamente sobre os sentimentos, mexem com as emoções, causam alegria e tristeza, ao que as pessoas reagem de várias maneiras, a depender de como são afetadas.

A maior parte do público gosta de se sentir partícipe do processo eleitoral, seja mediante manifestação de suas preferências diretamente nas entrevistas, que é ocorrência mais rara (a probabilidade de ser pesquisado é bem pequena), seja através do simples acompanhamento dos resultados divulgados pelas pesquisas, que é o caso predominante. Nesta última hipótese, o cidadão se sente como se entrevistado fora, como se suas opiniões estivessem ali representadas.

Se essas opiniões, expressas nas entrevistas ou assumidas como se das entrevistas fossem, estiverem em consonância com os resultados publicados, em termos de intenção de votos, então as pesquisas são consideradas naturais, condizentes com o que delas já se esperava. Parte do público, representantes de partidos, candidatos e especialistas de marketing, que estão obtendo bons resultados em intenções de voto ou que estão do lado numericamente em vantagem, compartilharão também dessa percepção de normalidade. Não há nesses casos nenhuma manifestação crítica aos resultados ou aos institutos de pesquisa.

Se, de outra sorte, os resultados das pesquisas não baterem com as expectativas, então as contrariedades serão imediatamente manifestadas através das mais variadas reclamações sobre a idoneidade dos institutos e a qualidade técnica das pesquisas. Candidatos e condutores das campanhas que se sentem prejudicados e veem os institutos como inimigos, imputando-lhes interesses venais, acusando-os de estarem a serviço dos adversários, empenhados em criar um anticlima às suas hostes, e por aí vai. E, ademais, procuram incutir esse sentimento a uma parte do grande público, aquela simpática às suas cores, que tende a aceitar essas versões com certa passividade. 

É bom repisar um ponto que temos reiterado aqui e alhures: uma boa parte da reação negativa do público, do leitor comum, aos resultados das pesquisas, está vinculada ao desconhecimento quase generalizado das características estatísticas e metodológicas que emolduram a concepção desses levantamentos e do real significado de seus resultados. Esse desconhecimento se observa até mesmo entre aqueles que tratam ou vivenciam o assunto com freqüência, como políticos, jornalistas e analistas políticos.

O fato é que em todas as eleições, antes, durante e depois, nada causa mais controvérsia do que os resultados de intenção de votos que são publicados com freqüência na mídia escrita, falada e televisada. E como hoje em dia são vários os institutos que fazem esses levantamentos, a poluição de resultados contribui enormemente para acirrar os ânimos, estabelecendo-se uma batalha de informações e contrainformações, que só contribui para confundir o eleitor.

 

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Sobre o autor

Maurício Costa Romão é Master e Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sendo autor de livros e de publicações em periódicos nacionais e internacionais...

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